Portugal poderá vir a dar um novo passo na investigação de soluções para reduzir as emissões de dióxido de carbono (CO₂), um dos principais gases responsáveis pelo aquecimento global.

Investigadores da Universidade de Évora identificaram, ao largo da Figueira da Foz, uma formação rochosa que poderá ser utilizada para armazenar CO₂ a grande profundidade. Os estudos apontam para uma capacidade de referência de pelo menos 93 milhões de toneladas.

O projeto é coordenado por Júlio Carneiro, professor do Departamento de Geociências da Universidade de Évora, investigador do CREATE e responsável pelo estudo que identificou o local com potencial para armazenamento geológico de CO₂.

O local situa-se a cerca de 22 quilómetros da costa, na Bacia Lusitaniana, e foi identificado no âmbito do projeto PilotSTRATEGY, desenvolvido pela Universidade de Évora em colaboração com a GALP e o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

Apesar do potencial identificado, ainda falta confirmar no terreno se o reservatório permite armazenar dióxido de carbono nas condições previstas pelos investigadores.

Como se pode guardar CO₂ debaixo do mar?

A ideia pode parecer estranha, mas parte de um princípio simples: utilizar determinadas formações rochosas profundas para guardar dióxido de carbono, impedindo que este regresse à atmosfera.

O processo começa com a captura do CO₂ produzido por atividades industriais. Depois, o gás é transportado até ao local escolhido e injetado numa formação rochosa adequada.

No caso da Figueira da Foz, o reservatório é constituído por arenito, uma rocha que contém pequenos espaços entre os seus grãos. Estes espaços, chamados poros, estão atualmente preenchidos por água muito salgada e poderão receber o CO₂ injetado.

O reservatório encontra-se a cerca de 1.200 metros abaixo do nível do mar. Por cima existem outras camadas de rocha que deixam passar muito pouco fluido e que poderão funcionar como uma barreira, dificultando a subida do dióxido de carbono até à superfície.

Para que o armazenamento seja seguro, não basta encontrar uma rocha com espaço disponível. É também necessário perceber se as camadas que a envolvem são suficientemente contínuas e se existem fraturas ou falhas que possam permitir a fuga do gás.

É precisamente por isso que os investigadores pretendem realizar novos estudos antes de avançarem para um teste no terreno.

Primeiro, é preciso testar

O objetivo imediato não é armazenar dezenas de milhões de toneladas de CO₂. A primeira etapa será realizar um projeto-piloto, ou seja, uma experiência em pequena escala que permita perceber como o reservatório se comporta na prática.

Segundo o calendário apresentado pela Universidade de Évora, o plano prevê realizar estudos sísmicos em 2027 e 2028. Estes estudos utilizam ondas sísmicas para ajudar a construir uma imagem das estruturas geológicas existentes em profundidade.

Se os resultados forem favoráveis, poderá ser perfurado um poço de injeção em 2030. A primeira experiência de armazenamento poderá decorrer em 2031 ou 2032, durante cerca de 12 meses, seguida de monitorização pelo menos até 2034.

O teste deverá envolver menos de 100 mil toneladas de CO₂, uma quantidade muito inferior à capacidade estimada para o reservatório.

Durante a experiência, os investigadores pretendem acompanhar a entrada e a distribuição do gás na formação rochosa, observar as alterações de pressão e verificar se as camadas de rocha conseguem impedir a sua migração para outras zonas.

Este calendário ainda não está garantido. A realização do projeto depende de financiamento, das autorizações necessárias e dos resultados obtidos em cada fase de estudo.

O CO₂ poderá chegar de comboio e de navio

Uma das soluções estudadas prevê utilizar dióxido de carbono capturado na cimenteira de Souselas, no distrito de Coimbra.

O gás seria transportado por comboio, em contentores especiais preparados para o manter em condições adequadas, até ao porto da Figueira da Foz. A partir daí, seguiria por navio até ao local de armazenamento, onde seria injetado no subsolo marinho.

Esta solução permitiria testar as diferentes etapas do processo sem construir, desde logo, uma plataforma no mar ou uma rede permanente de gasodutos.

O custo estimado do projeto-piloto é de cerca de 98 milhões de euros, podendo variar entre 90 e 120 milhões. Este valor não inclui a instalação necessária para capturar o CO₂ na fábrica de Souselas.

Porque pode ser importante para Portugal?

Algumas atividades industriais continuam a libertar grandes quantidades de CO₂, mesmo quando procuram reduzir o consumo de energia ou utilizar fontes renováveis.

Para Júlio Carneiro, professor do Departamento de Geociências da Universidade de Évora, o armazenamento geológico poderá constituir uma opção para atividades industriais em que outras soluções não permitem eliminar todas as emissões.

Continuar a investigação sobre captura e armazenamento de CO₂ é essencial para sabermos em que condições esta tecnologia pode contribuir para esse objetivo e para manter em Portugal a atividade dos setores de difícil descarbonização, afirma o investigador.

É o caso da produção de cimento e de cal, em que parte das emissões resulta das próprias reações químicas utilizadas no fabrico dos materiais. Nestes setores, a captura e o armazenamento de carbono poderão ser uma opção complementar para reduzir as emissões que não são facilmente eliminadas por outros meios.

A indústria da pasta e do papel poderá também beneficiar desta tecnologia em determinadas condições, sobretudo quando o dióxido de carbono capturado tem origem biológica, como acontece com o carbono proveniente da biomassa.

Quando o CO₂ é capturado de fontes biogénicas e armazenado de forma permanente, o processo poderá contribuir para retirar carbono da circulação atmosférica. No entanto, esse benefício depende da origem do carbono e da avaliação de todo o processo, incluindo a captura, o transporte e o armazenamento.

O que são fontes biogénicas?

São fontes provenientes de matéria orgânica de origem biológica, como plantas, árvores e outros organismos vivos.

Em paralelo, o projeto CTS (Carbon Transport and Storage) tem estudado diferentes formas de criar uma futura rede nacional para transportar e armazenar CO₂, recorrendo a gasodutos, ao transporte marítimo ou à combinação de ambos.

Antes de avançar para uma eventual infraestrutura industrial de grande escala, será necessário confirmar no terreno os resultados obtidos através dos modelos geológicos e das simulações. O projeto-piloto deverá permitir avaliar o comportamento do CO₂ no reservatório e esclarecer aspetos técnicos e operacionais importantes para uma possível utilização futura.

Júlio Carneiro, sublinha que Portugal assumiu o objetivo de neutralidade climática em 2045 e há setores industriais para os quais as soluções disponíveis são limitadas. Continuar a investigação sobre captura e armazenamento de CO₂ é essencial para sabermos em que condições esta tecnologia pode contribuir para esse objetivo e para manter em Portugal a atividade dos setores de difícil descarbonização

Para já, o projeto representa uma etapa de investigação. Se os estudos e os testes futuros confirmarem o potencial identificado, Portugal poderá passar a dispor de mais informação para avaliar esta tecnologia e o seu possível contributo para a descarbonização da indústria.

Este artigo foi elaborado com base na informação científica e institucional disponibilizada pela Universidade de Évora, no âmbito dos estudos sobre o potencial de armazenamento geológico de dióxido de carbono ao largo da Figueira da Foz.

Imagem de destaque:

Legenda: Claustro do Colégio do Espírito Santo, sede histórica da Universidade de Évora.

Crédito fotográfico: Joseolgon / Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0. Fotografia original.

Autor: Prof. Nuno Nascimento

Professor de Informática e apaixonado pelo conhecimento científico.

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