Os wormholes tornaram-se populares na ficção científica como atalhos cósmicos. No entanto, a história real começou em 1935, quando Albert Einstein e Nathan Rosen propuseram “pontes matemáticas” para descrever partículas, sem qualquer intenção de teorizar sobre viagens espaciais. Agora, um estudo publicado na Classical and Quantum Gravity oferece uma interpretação revolucionária: estas pontes não ligam pontos no espaço, mas sim setas do tempo opostas.

O Tempo como Espelho

Segundo Enrique Gaztañaga, K Sravan Kumar e João Marto, a realidade ao nível microscópico pode ser descrita por uma soma-direta de duas componentes temporais.

Nestas “pontes”, o horizonte gravitacional atua como um espelho, ligando uma região onde o tempo avança normalmente a outra onde ele evolui na direção oposta. Esta estrutura permite que o sistema físico seja “completo”, eliminando a necessidade de escolher uma direção do tempo ao acaso.

A Solução para o Paradoxo da Informação

Esta nova abordagem resolve o famoso enigma de Stephen Hawking sobre a perda de informação em buracos negros. Na teoria da soma-direta, a informação que entra num buraco negro não é destruída, ela continua a existir na direção temporal oposta.

Como afirmam os autores,

nada é verdadeiramente perdido, preservando a unitaridade da física quântica sem recorrer a teorias exóticas de gravidade quântica na escala de Planck.

O que é a unitaridade?

Preservar a unitaridade é um dos pilares fundamentais da Teoria Quântica de Campos e, em termos simples, significa garantir que a informação quântica nunca seja destruída ou perdida durante a evolução de um sistema.

Do Big Bang ao Big Bounce

A hipótese sugere ainda que o nosso Universo pode ter surgido de um “ressalto” (bounce) de um cosmos anterior que estava em contração. Esta visão é apoiada por dados do satélite Planck, onde a teoria da Inflação de Soma-Direta (DSI) demonstrou ser 650 vezes mais provável do que o modelo padrão ao explicar assimetrias observadas no início do Universo.

Representação das quatro regiões do espaço-tempo de Rindler. A imagem ilustra as regiões Esquerda (Left), Direita (Right), Futura (Future) e Passada (Past) do espaço-tempo de Rindler. As linhas curvas nas regiões Esquerda e Direita representam curvas de aceleração constante (ρ), com setas indicando os fluxos temporais opostos: tL​ (Esquerda) e tR​ (Direita). As regiões Futura e Passada indicam a variação de ρ e t. As linhas coloridas assinalam os Horizontes de Rindler: Amarelo (Esquerda), Verde (Direita), Ciano (Futuro) e Rosa (Passado) | Fonte: Gaztañaga, E., Kumar, K. S., & Marto, J. (2026). “A new understanding of Einstein–Rosen bridges”. Classical and Quantum Gravity, Volume 43, Número 1, 015023.

Embora ainda seja uma proposta teórica, este modelo transforma o horizonte de um buraco negro de um “ponto de não retorno” num espelho quântico que reflete a estrutura profunda da realidade, onde o tempo flui em ambas as direções.

Imagem de destaque: Espaço de fase do oscilador harmónico invertido (IHO). A imagem ilustra as soluções duplamente degeneradas para energias positivas e negativas que caracterizam a estrutura quântica das pontes de Einstein-Rosen. As trajetórias de energia negativa (em destaque nas regiões Q2<P2 e Q2>P2) e as de energia positiva (P2<Q2 e P2>Q2) estão ligadas por transformações discretas de paridade e inversão temporal. Neste modelo, o horizonte gravitacional funciona como um “espelho”, onde as duas setas do tempo se encontram para formar um sistema físico unitário e completo | Fonte: Gaztañaga, E., Kumar, K. S., & Marto, J. (2026). “A new understanding of Einstein–Rosen bridges”. Classical and Quantum Gravity, Volume 43, Número 1, 015023.

DOI: 10.1088/1361-6382/ae3044

Autor: Prof. Nuno Nascimento

Professor de Informática e apaixonado pelo conhecimento científico.

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