Durante séculos, a humanidade acreditou que a atmosfera era inesgotável. No entanto, desde as demonstrações de John Tyndall em 1859 e os cálculos de Svante Arrhenius em 1896, a ciência confirmou que a queima de combustíveis fósseis está a aquecer o planeta a um ritmo sem precedentes. Perante a dificuldade em reduzir as emissões, surge a geoengenharia como uma solução hipotética para arrefecer artificialmente a Terra. Um estudo recente publicado na revista Earth’s Future revela, porém, que estas intervenções podem ter consequências inesperadas e drásticas nos sistemas climáticos globais.
Duas estratégias, resultados opostos
A investigação liderada por Chen Xing e Samantha Stevenson comparou as duas técnicas de geoengenharia solar mais discutidas atualmente:
- Injeção de aerossóis na estratofosfera (SAI): Procura imitar o efeito de grandes erupções vulcânicas, libertando sulfatos a alta altitude para bloquear a luz solar.
- Branqueamento de nuvens marinhas (MCB): Consiste em pulverizar partículas de sal marinho nas nuvens baixas para aumentar a sua capacidade refletora.
Os modelos revelaram uma diferença crítica: enquanto a SAI distribui o arrefecimento de forma mais uniforme e quase não afeta os ciclos naturais, o branqueamento das nuvens no Pacífico oriental enfraqueceu o El Niño (ENSO) em cerca de 61%.

O colapso do El Niño e as suas repercussões
O El Niño é um motor climático que regula as chuvas e temperaturas em todo o mundo. A sua perturbação artificial poderia desencadear secas severas ou inundações em locais inesperados. O estudo explica que o branqueamento das nuvens arrefece a superfície mas também inibe a formação de chuva local, o que altera as correntes de ar e fortalece os ventos na linha do equador, “esmagando” o ciclo do El Niño.
Sobre este perigo, o autor principal do estudo, Chen Xing, lança um aviso direto:
“Não façam o branqueamento de nuvens marinhas sobre o Oceano Pacífico oriental, pois isso poderá causar reacções em cadeia extremamente fortes devido ao desaparecimento do El Niño.”
A complexidade da Terra e a “Hora da decisão”
A principal lição deste estudo é que não basta olhar para a temperatura média global. A investigadora Samantha Stevenson, coautora do trabalho, sublinha a importância da cautela:
“Duas intervenções podem atingir o mesmo objetivo de aquecimento a nível global e ter impactos climáticos regionais extremamente diferentes. A questão mais importante é: estamos a pensar em todas as consequências potenciais?”
Além do impacto no clima, o bloqueio da luz solar poderá reduzir a atividade fotossintética, prejudicando colheitas, florestas e, crucialmente, as algas marinhas, que geram cerca de 70% do oxigénio da nossa atmosfera.
Conclusão: complemento, não substituição
A investigação reforça que a geoengenharia deve ser vista apenas como um complemento secundário e nunca como um substituto para a descarbonização. Conhecer os riscos de cada proposta é essencial antes de tomar decisões que possam desestabilizar permanentemente o sistema climático que sustenta a vida na Terra.
