A amígdala é amplamente conhecida como o centro do medo e da ansiedade no cérebro. Contudo, investigadores do Instituto de Neurociências (CSIC-UMH), em Espanha, revelaram que o segredo para tratar estes distúrbios pode residir num grupo muito restrito de células: os neurónios de disparo regular (regular firing cells) da amígdala centrolateral.

O desequilíbrio genético: GluK4

A equipa liderada por Juan Lerma utilizou modelos que apresentavam uma produção excessiva do gene Grik4, que codifica uma subunidade do recetor de cainato (GluK4). Verificou-se que o aumento desta proteína provoca um desequilíbrio nos circuitos da amígdala, tornando os neurónios de disparo regular hiperexcitáveis. Como consequência, os animais manifestavam níveis elevados de ansiedade, comportamentos depressivos e retraimento social.

Figura representa o “ponto de partida” da descoberta: primeiro, os cientistas criaram e validaram um modelo que “tinha” ansiedade e circuitos desequilibrados, para depois poderem testar a sua reversão (que é mostrada nas figuras seguintes do artigo original) | García, A., et al. (2025). “Central role of regular firing neurons of centrolateral amygdala in affective behaviors”. iScience. DOI: 10.1016/j.isci.2025.112649

O que é a protéina Gluk4?

A proteína GluK4 é produzida internamente pelo organismo a partir das instruções contidas no gene Grik4. Esta proteína faz parte da família dos recetores de cainato e desempenha um papel fundamental na modulação da comunicação entre os neurónios, especialmente na amígdala e no hipocampo.

Forma de produção

A produção da GluK4 não ocorre através da alimentação. Ela resulta da expressão genética dentro das próprias células cerebrais (neurónios). O gene Grik4 funciona como um “manual de instruções” que a célula lê para fabricar a proteína.

Influência de situações exteriores

Embora o estudo se foque em causas genéticas, ele menciona que a produção excessiva desta proteína (sobre-expressão) pode ser desencadeada por variações no número de cópias do gene no ADN de um indivíduo. Em casos de ansiedade patológica em humanos, observa-se frequentemente uma hiperatividade na amígdala, o que pode estar relacionado com desequilíbrios bioquímicos nestes circuitos.

A reversão do comportamento

A grande inovação do estudo, cujo primeiro autor é Álvaro García, foi a utilização de um vetor viral para normalizar a dose do gene exclusivamente nos neurónios da amígdala basolateral. Ao restaurar este equilíbrio, a comunicação com a amígdala centrolateral estabilizou e, de forma surpreendente, os comportamentos de ansiedade e os défices sociais desapareceram completamente.

Tratamentos de precisão Um dado revelador foi que esta intervenção não recuperou a memória de reconhecimento de objetos, o que confirma que o ajuste foi altamente específico para os circuitos emocionais, poupando outras funções cognitivas que dependem de áreas como o hipocampo.

Segundo Lerma,

esta descoberta demonstra que a identificação de circuitos precisos oferece novos alvos terapêuticos, permitindo que futuras terapias se foquem apenas nas áreas afetadas em vez de atuarem de forma indiscriminada em todo o cérebro.

Possibilidade de medicamento

A descoberta deste circuito específico na amígdala é considerada pelos investigadores como um “novo alvo” para o desenvolvimento de terapias para perturbações afetivas. O objetivo seria criar medicamentos de precisão que conseguissem ajustar a atividade apenas desses neurónios específicos, em vez de atuarem de forma indiscriminada em todo o cérebro, reduzindo assim os efeitos secundários e aumentando a eficácia no combate à ansiedade e à depressão.

Imagem de destaque: Foto de Solving Healthcare na Unsplash

Autor: Prof. Nuno Nascimento

Professor de Informática e apaixonado pelo conhecimento científico.

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