O carcinoma fibrolamelar (FLC) é um cancro do fígado raro que afeta adolescentes e adultos jovens saudáveis. Caracteriza-se por células tumorais protegidas por espessas camadas de tecido fibroso que impedem o tratamento. Utilizando análise genética avançada, uma equipa liderada pelas universidades de Cornell e Washington descobriu que o tumor cria uma “armadilha” que retém as células T no tecido circundante.

Mapeamento genético da diversidade celular no Carcinoma Fibrolamelar (FLC). O estudo utilizou a técnica de sequenciação de ARN de núcleo único (snRNAseq) para analisar mais de 255 mil células de amostras primárias e metastáticas. O gráfico (B) (UMAP) permite visualizar os diferentes grupos de células que compõem o tumor, incluindo células epiteliais (cancerosas), imunitárias, endoteliais e mesenquimais. Os painéis (E) a (H) detalham as subpopulações destas células, permitindo aos investigadores identificar exatamente onde as células T do sistema imunitário ficam retidas no tecido fibroso, impedindo-as de atacar o tumor. | Adaptado de Carter, J. A., Dickerson, L. K., Stephanou, A., et al. (2026). Estudo sobre a heterogeneidade do microambiente tumoral no FLC. Universidades de Cornell e Washington. (Imagens criadas com BioRender.com)

Segundo Andreas Stephanou, um dos líderes do estudo, esta barreira física foi o segredo revelado pela investigação:

“Foi apenas quando utilizámos esta tecnologia [análise célula a célula] que o verdadeiro retrato do microambiente tumoral começou finalmente a tornar-se claro”.

Para contornar este obstáculo, os cientistas testaram o AMD3100, um fármaco já aprovado pela FDA, que bloqueia os sinais químicos que desviam as células imunitárias. Quando combinado com a imunoterapia, o medicamento permitiu que as células T penetrassem no tumor e destruíssem as células cancerígenas.

“Os nossos resultados fornecem algumas das primeiras indicações sobre porque razão este tipo de imunoterapia não tem funcionado nestes doentes, explica o investigador Praveen Sethupathy, acrescentando que, mesmo não sendo a solução única, este fenómeno de exclusão das células T é agora “um alvo importante a combater”.”

Um dos aspetos mais críticos é que o carcinoma fibrolamelar desenvolve-se silenciosamente, dificultando o diagnóstico precoce. Por isso, a rapidez em levar novas terapias aos doentes é vital. A grande vantagem desta descoberta é que o fármaco utilizado já é conhecido pela medicina.

Como sublinha Sethupathy,

“uma das características mais promissoras deste trabalho é que o AMD3100 já foi aprovado pela FDA, o que poderá reduzir riscos e encurtar significativamente o tempo necessário para iniciar ensaios clínicos”

Autor: Prof. Nuno Nascimento

Professor de Informática e apaixonado pelo conhecimento científico.

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