Há cerca de dois mil anos, a China deu origem aos primeiros fogos-de-artifício, uma tradição que evoluiu de caules de bambu estalantes para os complexos espetáculos pirotécnicos atuais. No entanto, a ciência revela agora que, quando as luzes se apagam, tem início um processo de contaminação ambiental que se prolonga muito para além da celebração. Três estudos recentes detalham como estes resíduos afetam a química da água, a pureza do ar e até a formação de nevoeiros tóxicos.
Contaminação aquática e bioquímica
A investigação conduzida por Guan-Lin Chen e Han-Qing Yu demonstrou que os resíduos sólidos que caem em rios e lagos não são apenas lixo físico, eles funcionam como agentes geoquímicos ativos. Estes resíduos libertam iões metálicos (como potássio e manganês) e compostos orgânicos que alteram a matéria orgânica dissolvida (DOM) na água. O estudo sublinha que esta alteração pode perturbar o equilíbrio dos microrganismos aquáticos. Sobre esta descoberta, os investigadores afirmam:
“Reconhecer os resíduos de foguetes não apenas como lixo físico, mas como motores geoquimicamente ativos da dinâmica da matéria orgânica dissolvida, é essencial para gerir sistemas aquáticos afetados por atividades festivas intensas.”
Qualidade do ar e a surpresa da hospitalidade
Um estudo liderado por W. Joe F. Acton durante os Jogos da Commonwealth de 2022, no Reino Unido, revelou que as concentrações de partículas finas (PM2.5) em áreas de lazer próximas aos estádios chegaram a ser 10 vezes superiores às de zonas urbanas normais. Embora os fogos-de-artifício nas cerimónias tenham causado picos de enxofre e ferro, a análise revelou que 71% da poluição por partículas durante as sessões atléticas foi provocada pela confecção de comida rápida (grelhados e frituras) nos stands do evento. Para um espectador presente durante todo o dia, isto representou um aumento de 125% na exposição a poluentes inaláveis, ultrapassando os limites da OMS.
A Descoberta de novos poluentes: Aminas atmosféricas
Durante o Ano Novo Lunar na China, a equipa de Lin Gui e Yu Xu identificou, pela primeira vez, que os fogos-de-artifício são uma fonte significativa de aminas gasosas e particuladas. Estes compostos químicos são cruciais porque reagem na atmosfera para formar aerossóis e névoa (haze), permanecendo ativos muito depois do fim do fumo visível. O estudo destaca:
“Este estudo apresenta uma nova fonte de emissão de aminas atmosféricas, fornecendo novas perspetivas sobre os poluentes relacionados com o fogo-de-artifício.”

Conclusão: Conciliar tradição e proteção
Em conjunto, estas investigações mostram que o impacto pirotécnico é mais complexo e duradouro do que se imaginava, transformando eventos episódicos em perturbações extensas nos ecossistemas. A solução, defendem os cientistas, não passa necessariamente por proibir a tradição, mas por adotar medidas de mitigação rigorosas, como a recolha imediata de resíduos sólidos, o desenvolvimento de fórmulas químicas menos poluentes e uma gestão mais eficiente das zonas de restauração em grandes eventos.
Em conjunto, estes trabalhos reforçam a evidência de que os fogo-de-artifício têm impactos ambientais que vão além do fumo visível.
1ºtrabalho – https://pubs.acs.org/doi/10.1021/acs.est.6c01478
2ºtrabalho – https://pubs.acs.org/doi/full/10.1021/acsestair.5c00142
3ºtrabalho – https://pubs.acs.org/doi/10.1021/acs.estlett.5c00806
Imagem de destaque: Foto de Ray Hennessy na Unsplash
