Durante décadas, os hantavírus foram encarados pela comunidade médica como patologias transmitidas quase exclusivamente por roedores. No entanto, uma investigação de grande relevo publicada no New England Journal of Medicine veio demonstrar que a realidade epidemiológica pode ser consideravelmente mais complexa. O estudo, liderado por Valeria P. Martínez, Nicholas Di Paola e Daniel O. Alonso, analisou detalhadamente um surto ocorrido entre 2018 e 2019 na província de Chubut, na Argentina, provocado pelo vírus Andes, um variante raro e particularmente letal do hantavírus.

O surto em análise resultou em 34 infeções confirmadas e 11 vítimas mortais. Para reconstruir a cadeia de transmissão com precisão, os investigadores utilizaram ferramentas avançadas de análise genómica, rastreio de contactos e a sequenciação completa do genoma viral.

Os resultados revelaram que, embora o surto tenha tido origem numa única passagem do vírus de um roedor para um humano, este evento inicial foi sucedido por múltiplos episódios de transmissão entre pessoas.

Figura do estudo mostra as cadeias de transmissão do vírus Andes entre doentes humanos durante o surto de 2018–2019 na Argentina

A equipa de investigação identificou que três doentes desempenharam um papel central na propagação do vírus, após terem marcado presença em eventos sociais com elevada densidade de pessoas. No artigo, sublinha-se que a disseminação invulgar do patógeno esteve diretamente associada ao “contacto extenso entre indivíduos” e à participação em “grandes reuniões sociais”, cenários que permitiram ao vírus Andes espalhar-se de uma forma anormal para a família dos hantavírus.

Um dos contributos mais inovadores deste estudo foi a identificação de marcadores biológicos de transmissibilidade. Descobriu-se que doentes com uma elevada carga viral apresentavam uma probabilidade significativamente maior de transmitir a infeção.

Além disso, os investigadores observaram que a existência de alterações hepáticas nos pacientes estava ligada com uma maior capacidade de disseminação do vírus. Em sentido contrário, variáveis como a idade, o tempo de internamento ou a gravidade dos sintomas clínicos não demonstraram uma relação clara com a capacidade de contágio.

No que toca ao controlo da saúde pública, Valeria Martínez e a sua equipa destacam que,

as medidas de isolamento e quarentena impostas pelas autoridades argentinas foram cruciais para conter a propagação.

Os dados são elucidativos: antes da implementação destas restrições, cada indivíduo infetado transmitia o vírus, em média, a mais de duas pessoas. Após a quarentena, este valor caiu para menos de um caso secundário por doente, travando a progressão do surto.

Em jeito de conclusão, os cientistas ressalvam que o vírus Andes permanece uma exceção no universo dos hantavírus, cuja maioria das infeções continua a advir do contacto com excreções de roedores. Todavia, este trabalho estabelece-se como um marco na virologia moderna ao provar que, em contextos específicos de proximidade social e sob determinadas condições biológicas, a transmissão inter-humana é um risco real que deve ser integrado nas estratégias globais de vigilância epidemiológica

Imagem de destaque: Foto de CDC na Unsplash

Autor: Prof. Nuno Nascimento

Professor de Informática e apaixonado pelo conhecimento científico.

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