Durante décadas, a região da Lourinhã tem sido mundialmente reconhecida pelos seus impressionantes fósseis de dinossauros. Contudo, uma nova descoberta revela que, aos pés desses gigantes, vivia uma grande comunidade de pequenos vertebrados até agora desconhecida da ciência. Uma equipa internacional de investigadores, liderada pelo paleontólogo Alexandre Guillaume (NOVA FCT e Museu da Lourinhã), descreveu uma nova espécie de anfíbio com 150 milhões de anos: a Nabia civiscientrix.

O método: ciência cidadã e “Folhas de chá” fósseis

A investigação baseou-se no estudo de centenas de ossos fósseis minúsculos recolhidos na Formação da Lourinhã. Muitos destes exemplares foram encontrados através do projeto de Ciência Cidadã Micro Saurus, desenvolvido em parceria com o Dino Parque e o Museu da Lourinhã.

Os fósseis são tão pequenos, muitos com menos de 1 mm de largura, que o curador Dr. Marc Jones (curador de répteis fósseis no Museu de História Natural de Londres), descreveu-os como assemelhando-se a “folhas de chá” a olho nu. Para superar este desafio, os cientistas utilizaram tecnologia de ponta, recorrendo a micro-CT scans (tomografia computorizada de alta resolução) para analisar os ossos e criar modelos digitais 3D detalhados da anatomia do animal.

O que é um curador?

É um especialista responsável pela gestão, preservação e estudo de uma coleção de espécimes ou objetos.

Língua balística na sombra dos dinossauros

A Nabia civiscientrix pertence aos Albanerpetontidae, um grupo extinto de anfíbios que, embora se parecessem com pequenas salamandras, possuíam características únicas. Com menos de 5 cm de comprimento, estes animais tinham uma língua balística capaz de ser projetada a alta velocidade para capturar presas, um mecanismo muito semelhante ao dos camaleões atuais. Esta descoberta torna a Nabia o membro mais antigo do seu grupo conhecido na Península Ibérica.

Uma homenagem nos nomes

O nome da espécie é um tributo direto à comunidade. O género Nabia faz referência à deusa lusitana dos rios, enquanto civiscientrix traduz-se como “aquela que pratica ciência cidadã”.

Segundo o investigador Miguel Moreno-Azanza,

este achado é um exemplo concreto de como voluntários locais podem contribuir diretamente para descobertas publicadas em revistas internacionais de prestígio, como o Journal of Systematic Palaeontology, onde o estudo foi divulgado.

Conclusão

Este trabalho demonstra que o ecossistema jurássico da Lourinhã era muito mais diverso do que os fósseis de dinossauros faziam supor.

Para Alexandre Guillaume,

este é apenas o primeiro passo para compreender melhor os pequenos sobreviventes que prosperaram à sombra dos dinossauros e ajuda a preencher uma lacuna importante na história da biodiversidade portuguesa.

Imagem de destaque:Scientific palaeoillustration of Nabia civiscientrix. © Eva Carret

Autor: Prof. Nuno Nascimento

Professor de Informática e apaixonado pelo conhecimento científico.

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