Utilizando um “termómetro geológico” microscópico preservado no esmalte dentário, cientistas descobriram que o T. rex mantinha uma temperatura interna tão quente como a dos mamíferos modernos, explicando a sua capacidade de dominar até os ambientes mais frios do planeta.

O Tyrannosaurus rex sempre foi reconhecido pelas suas grandes dimensões e hábitos de predador. No entanto, a sua fisiologia e a forma como regulava o calor corporal permaneceram motivo de aceso debate científico durante décadas. Um novo estudo internacional, publicado na revista Science Advances e liderado pelo investigador Randon J. Flores, conseguiu finalmente medir de forma direta a temperatura corporal deste superpredador através da análise química do esmalte dos seus dentes. Para este trabalho, o Museu de História Natural do Condado de Los Angeles desempenhou um papel essencial ao fornecer pequenas amostras de dentes fósseis.

Um termómetro atómico com milhões de anos

Para obter estes valores, os investigadores recorreram à paleotermometria de isótopos aglomerados (clumped isotopes). Esta técnica analisa a frequência com que isótopos pesados de carbono-13 e oxigénio-18 se ligam diretamente entre si no mineral. Quanto mais elevada for a temperatura no momento em que o esmalte se forma no animal vivo, menor é a frequência com que estas ligações químicas se formam. O esmalte dentário é o material perfeito para esta medição porque a sua estrutura cristalina ultraresistente protege a assinatura química original contra alterações ao longo de dezenas de milhões de anos.

A equipa analisou três dentes de T. rex provenientes da famosa Formação Hell Creek, em Montana (incluindo amostras de um indivíduo jovem adulto). Para garantir que os dados refletiam a biologia do animal e não contaminações geológicas do solo, os cientistas analisaram também dentes de crocodilianos fósseis encontrados nas mesmas camadas rochosas.

Os resultados revelaram uma diferença incontestável:

  • Tyrannosaurus rex: ~36,3 °C
  • Crocodilianos contemporâneos: ~30,9 °C
Comparação de temperaturas corporais e dentes analisados. (A) Temperaturas estimadas para o T. rex, crocodilianos e bivalves fósseis em comparação com animais atuais e modelos climáticos. (B) Dentes fósseis de T. rex analisados no estudo. Créditos: Fotografias de S. Abramowicz (Dinosaur Institute, NHM de Los Angeles). Silhuetas por M. Brea Lueiro, G. Dera e P. Amador Crespo. Fonte: Flores et al. (2026), Science Advances.

A temperatura consideravelmente mais alta do T. rex em relação aos répteis de sangue frio da mesma época prova que o tiranossauro mantinha o seu corpo aquecido bem acima da temperatura do ambiente. Além disso, a análise da água corporal revelou um padrão fisiológico idêntico ao das aves modernas (como avestruzes e galinhas), reforçando a ideia de que o T. rex possuía um metabolismo endotérmico ativo.

O que é um animal endotérmico?

São animais que conseguem produzir calor internamente através do seu metabolismo e manter a temperatura corporal relativamente estável, mesmo quando a temperatura do ambiente varia.

A chave para conquistar o Alasca

Esta descoberta traz uma resposta muito importante para outro enigma paleontológico. Fósseis de tiranossaurídeos têm vindo a ser descobertos em latitudes extremamente elevadas no extremo norte do continente, como no Alasca, onde o clima do Cretácico registava temperaturas sazonais muito frias e por vezes negativas.

Manter uma temperatura interna constante em redor dos 36 °C explica como o T. rex e os seus parentes próximos conseguiam permanecer ativos, caçar e nidificar durante todo o ano nessas regiões geladas. Ao combinarem os dados dos dentes com modelos climáticos globais do final do Cretácico, os autores demonstraram que quase todo o continente norte-americano apresentava condições térmicas adequadas para a sobrevivência da espécie.

Mais do que resolver o mistério sobre o T. rex, esta investigação valida uma metodologia rigorosa que poderá agora ser aplicada a outros dinossauros. No futuro, os cientistas pretendem usar este “termómetro de esmalte” para mapear exatamente quando e como surgiu a capacidade de ter sangue quente na árvore evolutiva dos répteis e das aves.

Autor: Prof. Nuno Nascimento

Professor de Informática e apaixonado pelo conhecimento científico.

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