Em 2015, uma expedição científica a bordo do navio E/V Nautilus explorou os ecossistemas profundos da Reserva Marinha das Galápagos utilizando o robô submarino ROV Hercules. Durante o mergulho 1440, junto a uma montanha submarina perto da Ilha Darwin, a equipa encontrou algo inesperado: um minúsculo polvo de cor azulada, pousado num substrato de sedimentos e afloramentos basálticos a 1.773 metros de profundidade.
A reação dos investigadores foi imediata e de puro espanto: “É minúsculo!” e “É azul!”, registaram os diários da missão. O animal, com um tamanho semelhante ao de uma bola de golfe, revelou-se uma espécie inteiramente nova para a ciência, agora batizada como Microeledone galapagensis. O estudo, liderado por Janet R. Voight com a colaboração de Salome Buglass, Stephanie M. Smith e Alexander Ziegler, descreve uma criatura cujas características anatómicas desafiam o que sabíamos sobre a sua família biológica.
Um espelho de cores inverso
Embora tenha sido descrito como “azul” nas luzes do ROV, a análise laboratorial detalhou uma característica rara conhecida como sombreado inverso (reverse countershading). Enquanto a maioria dos animais marinhos é escura no dorso para se camuflar com o fundo, este polvo é quase desprovido de pigmento (pálido) na parte superior e exibe tons de púrpura profundo e castanho-avermelhado escuro. Além disso, a espécie não possui saco de tinta, aletas anais ou divertículo no papo, o que sugere uma adaptação evolutiva extrema ao seu nicho nas profundezas.

Tecnologia de ponta e revelações internas
Dada a raridade de possuírem apenas um exemplar, a equipa utilizou Microtomografia Computadorizada (μCT), uma técnica de imagem 3D não invasiva que permitiu dissecar o animal digitalmente sem o danificar. Esta tecnologia revelou detalhes minuciosos, como a estrutura da glândula ovidutal e até a presença de foraminíferos (pequenos organismos) no estômago do polvo, fornecendo pistas sobre a sua dieta.
Reescrevendo a árvore da vida
Esta descoberta teve um impacto profundo na taxonomia. Até agora, a família Megaleledonidae era definida como sendo composta por polvos de grande porte, exclusivos das águas geladas do Oceano Antártico. O Microeledone galapagensis provou que estes animais podem ser minúsculos e habitar águas tropicais profundas, forçando os cientistas a reverem a definição oficial desta família.
Como destacou a coautora Salome Buglass,
esta descoberta recorda-nos de quanto do oceano profundo das Galápagos continua por explorar.
Janet Voight resume a importância histórica deste achado:
Quase ninguém na Terra teve oportunidade de ver estes pequenos polvos.
A descoberta deste pequeno gigante azul serve como um lembrete de que, mesmo num planeta amplamente estudado, as profundezas ainda guardam segredos capazes de reescrever os nossos manuais de biologia.
