A saúde mental das crianças e dos adolescentes tornou-se uma das maiores preocupações de saúde pública, especialmente num período de rápido desenvolvimento biológico e psicossocial. Para compreender o papel da família alargada neste cenário, os investigadores Lifen Zhao, Zhiyou Wang e a sua equipa realizaram uma revisão organizada e alargada, publicada na revista Behavioral Sciences, que analisou dados de 20 estudos envolvendo mais de 11.400 jovens.

Fluxograma do processo de seleção e inclusão de artigos científicos para a meta-análise. Este diagrama detalha as etapas rigorosas da revisão sistemática realizada pelos investigadores. De um total de 3.197 estudos identificados inicialmente em nove bases de dados (como PubMed e Web of Science), o processo de triagem eliminou duplicados e artigos que não cumpriam os critérios de inclusão. Após a leitura integral de 291 textos, foram selecionados os 20 estudos empíricos finais que permitiram analisar a relação entre os estilos de cuidado dos avós e a saúde mental de mais de 11.400 crianças e adolescentes | Reproduzido de Zhao, L., Tian, M., Wang, Z., & Hu, D. (2025). “Associations of Grandparenting Dimensions/Styles with Mental Health in Children and Adolescents: A Systematic Review and Meta-Analysis”. Behavioral Sciences, 15(2): 180. DOI: 10.3390/bs15020180. (Licença CC BY 4.0)

Segundo o autor Zhiyou Wang, os resultados reforçam que o impacto desta ligação vai muito além do apoio logístico, afirmando que “as dimensões e estilos positivos da relação entre avós e netos estão negativamente associados à depressão e à ansiedade”, funcionando como um autêntico fator de proteção.

A investigação revela que o fator determinante não é simplesmente o convívio, mas sim a forma como a relação é construída. Interações marcadas pelo afeto, diálogo e incentivo apresentaram conexões significativas com a redução da depressão (r = -0.33) e da ansiedade (r = -0.12) nos netos. Um detalhe científico relevante é que o impacto positivo da presença dos avós tende a ser mais acentuado em crianças pequenas, perdendo força à medida que os jovens entram na adolescência e conquistam maior independência. Esta variação sugere que o suporte emocional dos avós é um pilar crítico nas fases mais vulneráveis do desenvolvimento infantil.

Em contrapartida, o estudo alerta para o impacto negativo de estilos de cuidado marcados por críticas constantes, hostilidade ou controlo psicológico excessivo. Estes comportamentos estão positivamente associados a indicadores de sofrimento emocional, revelando que conflitos familiares ou excesso de interferência podem agravar sintomas de ansiedade e isolamento social.

Para os autores, estes dados sublinham a necessidade de os avós serem vistos como figuras de estabilidade, e não de pressão, concluindo que “promover relações familiares positivas poderá ser uma estratégia complementar para apoiar o bem-estar psicológico das crianças”.

Embora os autores reconheçam limitações, como o facto de a maioria dos estudos ser observacional e não permitir concluir uma relação direta de causa e efeito, a consistência da evidência sugere que avós calorosos funcionam como “sentinelas emocionais“. Num período em que os problemas de saúde mental juvenil continuam a aumentar, o estudo destaca que os avós podem desempenhar um papel valioso, não apenas como cuidadores ocasionais, mas como porto seguro e figuras de escuta. Compreender esta dinâmica geracional, assente no suporte mútuo, ajuda a explicar a origem de muitas das características que definem a resiliência humana moderna.

Imagem de destaque: Foto de Vidar Nordli-Mathisen na Unsplash

Autor: Prof. Nuno Nascimento

Professor de Informática e apaixonado pelo conhecimento científico.

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