Pesquisadores já observaram comportamentos que se assemelham a brincadeiras de faz de conta em chimpanzés (Pan troglodytes), bonobos (Pan paniscus) e outros grandes símios. Um bonobo em cativeiro chamado Panbanisha foi observado a fazer um movimento de colher sobre uma imagem de mirtilos e, em seguida, levando os dedos à boca, como se estivesse a comer uma fruta imaginária. Pesquisadores também documentaram chimpanzés selvagens a carregar troncos como se fossem bonecas, especialmente fêmeas jovens.
Para testar explicitamente se os símios conseguem “fazer de conta”, os investigadores Bastos e Krupenye adaptaram uma tarefa usada com crianças, que geralmente começam a imaginar objetos imaginários entre os 2 e 3 anos de idade. A tarefa foi facilitada porque Kanzi que faleceu em 2025 aos 44 anos, entendia centenas de palavras em inglês e podia comunicar-se usando símbolos chamados lexigramas. “Ficámos todos impressionados, pois Kanzi é uma celebridade de longa data no campo da cognição animal”, disse Bastos.
Depois que Kanzi aprendeu a escolher um copo transparente cheio de sumo em vez de um vazio, os pesquisadores passaram à tarefa da festa do chá. Um investigador mostrava dois copos e depois fingia enchê-los a partir de um jarro vazio. Após inverter um dos copos “esvaziando” o conteúdo imaginário, Kanzi era solicitado a escolher um copo. O bonobo selecionou o copo “cheio” em 34 de 50 ensaios, bem acima do esperado por acaso. Numa tarefa similar envolvendo uvas, Kanzi escolheu a fruta imaginária em 69% dos ensaios.
As representações secundárias permitem que a mente se afaste do aqui e agora, e gere possibilidades imaginárias, hipotéticas ou alternativas, desligadas da realidade, sustentando capacidades cognitivas avançadas como a atribuição de estados mentais, a simulação de futuros possíveis e o faz de conta. Os autores apresentam evidências experimentais de que um primata não humano consegue representar objetos imaginários. Estes resultados sugerem que a capacidade de formar representações secundárias pode já existir, pelo menos, em grandes símios a viverem extensivamente em ambientes humanos, remontando possivelmente a 6–9 milhões de anos, aos nossos ancestrais evolutivos comuns.

Figura 1. Sequência de eventos num ensaio-prova do Experimento 1.
Os ensaios começavam com a comunicação do investigador: “Kanzi, vamos jogar um jogo. Vamos encontrar o sumo!”, colocando dois copos transparentes vazios sobre a mesa (A). O investigador sentava-se à mesma distância dos dois copos (B) e de seguida, retirava um jarro transparente vazio debaixo da mesa, simulando a ação de despejar o conteúdo em cada copo (a ordem era equilibrada entre os ensaios), acompanhando cada simulação com o comando verbal: “Kanzi, olha!” (C e D). Depois, o investigador pegava num dos copos (a escolha do lado também era equilibrada entre os ensaios) e fingia despejar o conteúdo de volta no jarro (E). Por fim, o jarro era colocado de volta debaixo da mesa e a mesa era empurrada na direção do sujeito, enquanto o investigador perguntava: “Kanzi, onde está o sumo?” (F). A primeira resposta de Kanzi para qualquer copo foi registado como a sua resposta.
Referências:
Bastos, A. P. M. & Krupenye, C. Science 391, 583–586 (2026).
Investigadores:
Amalia P. M. Bastos
apmb1@st-andrews.ac.uk
Christopher Krupenye
Funding Information:
Templeton World Charity Foundation: TWCF-20647
Johns Hopkins Postdoctoral Fellowship
CIFAR Azrieli Global Scholars
Diverse Intelligences Summer Institute
doi: https://doi.org/10.1038/d41586-026-00357-7
