A Califórnia é uma das regiões sísmicas mais ativas do planeta, situada diretamente no limite entre a Placa do Pacífico e a Placa Norte-Americana. De acordo com a informação do USGS (United States Geological Survey) e a rede sísmica da Califórnia, são detetados anualmente:

  • Cerca de 10.000 a 20.000 sismos por ano em todo o estado.
  • A grande maioria apresenta uma magnitude inferior a 3, não sendo sentida pela população.
  • Apenas algumas centenas de eventos são anualmente sentidos pelas pessoas.

Embora o número de sismos registados pareça ter aumentado desde os anos 1970, o USGS esclarece que tal se deve sobretudo à existência de redes sísmicas mais densas, sensores mais sensíveis e melhor processamento informático, permitindo detetar pequenos tremores que antes passavam despercebidos. Contudo, no que toca a sismos moderados e fortes, não existe uma tendência clara de aumento, ocorrendo estes de forma irregular ao longo do tempo.

Apesar desta irregularidade, um novo estudo científico sugere que a situação atual poderá ser particularmente delicada. Segundo uma investigação liderada por Liliane Burkhard, os níveis de tensão acumulados nas falhas de San Andreas e San Jacinto atingiram os valores mais elevados dos últimos mil anos. Através de simulações em 4D e dados paleossísmicos, a equipa determinou que várias secções destas falhas se encontram num estado “criticamente carregado”. Em 2025, a tensão de Coulomb no segmento San Jacinto Bernardino (SJB) atingiu os 3,6 MPa, superando largamente os máximos históricos registados no último milénio.

Cronologia dos eventos paleossísmicos (em anos CE) no sistema de falhas do Sul da Califórnia. As estrelas amarelas marcam os epicentros de grandes sismos recentes (Landers, Hector Mine e Ridgecrest), enquanto o detalhe (canto inferior direito) ilustra a geometria da junção no Cajon Pass, composta pelos segmentos MOS, NSB e SJB | Reproduzido de Burkhard et al. (2026), Journal of Geophysical Research: Solid Earth

O ponto focal desta ameaça é a região de Cajon Pass, a nordeste de Los Angeles, que funciona como uma “porta sísmica” (ou earthquake gate). Os modelos revelaram que esta zona pode atuar como uma barreira que trava sismos ou como um facilitador que permite que uma rutura se propague entre as duas falhas principais, originando um evento de magnitude muito superior. O fator decisivo para a “abertura” desta porta parece ser o alinhamento das tensões: quando a diferença de pressão entre os segmentos é mínima (inferior a 0,2 MPa), aumenta drasticamente a probabilidade de um sismo tripartite envolver todo o sistema.

Anualmente, a Falha de San Andreas acumula aproximadamente 3 a 5 centímetros de deslocamento relativo entre as placas. Como explicam os geólogos, os terramotos acontecem porque estas placas ficam presas durante demasiado tempo, libertando subitamente em segundos a energia acumulada durante décadas ou séculos. Sobre a complexidade deste mecanismo, a investigadora Liliane Burkhard afirma:

“Os nossos resultados mostram que os níveis de tensão em vários segmentos das falhas estão atualmente nos valores mais elevados observados ao longo do último milénio. […] Cajon Pass não bloqueia nem canaliza automaticamente os sismos, responde às condições de tensão, que mudam ao longo dos séculos”.

Embora o estudo não permita prever a data exata do próximo grande sismo, os investigadores reforçam que a elevada tensão acumulada indica que a probabilidade de um evento significativo num futuro próximo é elevada, tornando vital a melhoria dos planos de preparação e resposta a desastres naturais.

Imagem de destaque: Mapa detalhado do sistema de falhas no Sul da Califórnia. A imagem destaca a Falha de San Andreas (traço a roxo) e a Falha de San Jacinto (traço a azul). Os pontos brancos delimitam os segmentos analisados no estudo e a região a vermelho identifica o Cajon Pass, a junção crítica onde a tensão tectónica se encontra em níveis máximos. Créditos: Adaptado de Burkhard et al. (2026), Journal of Geophysical Research: Solid Earth

Autor: Prof. Nuno Nascimento

Professor de Informática e apaixonado pelo conhecimento científico.

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