Um novo estudo sobre o 3I/ATLAS foi disponibilizado na plataforma arXiv e ainda aguarda revisão por pares. Este trabalho científico foi desenvolvido por vários investigadores, incluindo o astrónomo Ignacio Ferrín, que liderou o projeto.

O 3I/ATLAS tem vindo a ser observado há vários meses e, com base nos dados recolhidos, os cientistas identificaram um conjunto de propriedades pouco comuns que estão a despertar a atenção da comunidade científica. Atualmente, este objeto é classificado como um cometa, embora alguns aspetos do seu comportamento e das suas características físicas não se enquadrem totalmente nos modelos tradicionais.

Segundo os autores, a curva de luz do objeto apresenta variações inesperadas, incluindo uma alteração significativa ao longo de cerca de 45 dias e uma queda abrupta de brilho que ainda não foi explicada de forma convincente. Mais surpreendente ainda, o pico máximo de luminosidade não ocorre no ponto de maior proximidade ao Sol, mas sim cerca de duas semanas depois — um atraso térmico que, como referem os investigadores, “não é totalmente compreendido” e pode indicar processos físicos mais complexos.

Curva de luz do 3I/ATLAS com médias diárias dos dados do MPC, evidenciando uma anomalia fotométrica entre cerca de −120 e −45 dias antes do periélio. Este comportamento, com duração aproximada de 75 dias, é invulgar para um cometa e sugere uma alteração significativa na atividade do objeto.

Outro aspeto incomum está relacionado com a aparência da coma, a nuvem de gás e poeira que envolve o objeto. As observações apontam para uma estrutura surpreendentemente simétrica, algo pouco frequente em cometas ativos. A análise com técnicas de processamento de imagem, como o filtro de Larson-Sekanina, revelou ainda padrões de jatos com uma organização invulgar, sugerindo uma atividade interna que poderá não ser uniforme nem simples de interpretar.

Imagem do 3I/ATLAS obtida após o periélio. A aplicação do filtro de Larson-Sekanina não revela estruturas ou jatos, indicando uma coma invulgarmente simétrica e uma distribuição homogénea de material em torno do objeto.

Os dados disponíveis não permitem ainda determinar com precisão a dimensão do núcleo nem o seu poder de reflexão, uma vez que este permanece oculto pela própria atividade do objeto. Esta limitação dificulta a sua caracterização detalhada e contribui para algumas aparentes contradições: por um lado, apresenta brilho e atividade comparáveis aos de cometas ativos, por outro, não exibe todos os sinais típicos esperados, o que levanta questões sobre a sua natureza.

Adicionalmente, o estudo aponta para episódios de ejeção significativa de material, cuja interpretação permanece incerta. Em condições normais, este tipo de atividade poderia estar associado a uma forte sublimação ou até a processos de fragmentação, mas essas hipóteses não são claramente suportadas pelas observações disponíveis.

Imagem do 3I/ATLAS obtida 61 dias após o periélio e processada com o filtro de Larson-Sekanina. A análise revela um filamento alongado na cauda e possíveis estruturas de detritos, incluindo um objeto destacado na região superior direita. Cada pixel corresponde a cerca de 7500 km, permitindo estimar estruturas com dimensões comparáveis à distância Terra–Lua.
Imagem do 3I/ATLAS obtida 83 dias após o periélio e processada com o filtro de Larson-Sekanina. A análise revela um jato com cerca de 6 500 km de extensão e estruturas de detritos na cauda, incluindo um possível fragmento de grandes dimensões. A escala da imagem (aproximadamente 5200 km por pixel) indica estruturas com dimensões comparáveis à distância Terra–Lua.

Perante este conjunto de dados, os investigadores admitem que o 3I/ATLAS poderá ser mais complexo do que inicialmente se pensava. Entre as hipóteses consideradas está a possibilidade de se tratar de um sistema binário, no qual dois corpos interagem entre si, podendo explicar algumas das variações observadas.

Como sublinha a equipa,

a interpretação dos dados permanece desafiante, sendo necessárias novas observações para compreender melhor este enigmático visitante vindo de fora do nosso Sistema Solar.

Autor: Prof. Nuno Nascimento

Professor de Informática e apaixonado pelo conhecimento científico.

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