Durante séculos, pensadores tentaram responder a uma questão fundamental: será que nascemos como uma “folha em branco”? O filósofo John Locke defendia que todo o conhecimento resulta da experiência. Já Immanuel Kant sugeria o inverso: o cérebro humano nasce com estruturas próprias que moldam a forma como entendemos o mundo. Hoje, a ciência começa a aproximar estas duas visões. Um novo estudo do Institute of Science and Technology Austria sugere que o cérebro não começa vazio, mas sim com uma rede densa de ligações que é depois refinada ao longo do desenvolvimento.

A investigação, liderada por Victor Vargas-Barroso e supervisionada por Peter Jonas, centrou-se no hipocampo, uma região essencial para a memória e a orientação no espaço. Os cientistas analisaram um circuito específico, formado por neurónios chamados CA3, fundamentais para armazenar e recuperar memórias.

Para compreender como este sistema evolui, os investigadores estudaram cérebros de ratos em diferentes fases de desenvolvimento: logo após o nascimento, durante a adolescência e na idade adulta. Utilizando técnicas avançadas para medir a atividade elétrica dos neurónios e observar as suas ligações, foi possível reconstruir a forma como estas redes mudam ao longo do tempo.

Curiosidade?

Embora o estudo tenha sido realizado em ratos, os mecanismos observados são comuns a muitos mamíferos, incluindo os humanos, o que permite retirar pistas importantes, ainda que não conclusões definitivas.

Os resultados revelaram algo inesperado. Em vez de começarem simples e ganharem complexidade, as redes neuronais surgem inicialmente muito densas e aparentemente desorganizadas. Com o crescimento, muitas dessas ligações são eliminadas, tornando o sistema mais eficiente.

Como explica Peter Jonas,

esperar-se-ia que a rede se tornasse mais densa com o tempo, mas vemos exatamente o contrário.

Este processo, conhecido como poda sináptica, permite que o cérebro se torne mais rápido e eficaz na forma como processa informação.

Segundo Jonas,

começar com muitas ligações pode ser vantajoso, pois facilita a integração de diferentes tipos de informação, como imagens, sons e cheiros, essenciais para a formação de memórias complexas.

No conjunto, o estudo sugere que o cérebro não parte do zero, mas sim de uma estrutura rica em conexões que é progressivamente refinada. Esta descoberta pode ajudar a compreender melhor como se desenvolvem as capacidades cognitivas e lançar novas perspectivas sobre perturbações do desenvolvimento neurológico.

Autor: Prof. Nuno Nascimento

Professor de Informática e apaixonado pelo conhecimento científico.

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