O controlo do fogo foi um dos passos mais decisivos na história da humanidade, permitindo o cozimento de alimentos, o que impulsionou o desenvolvimento do cérebro e oferecendo proteção contra predadores. Uma nova investigação na Gruta de Wonderwerk, na África do Sul, liderada por M. Dolores Marin-Monfort e Liora Kolska Horwitz, acaba de recuar esta cronologia, sugerindo que os nossos antepassados já utilizavam fogo há cerca de 1,8 milhões de anos.

Reconstrução de uma fêmea adulta de Homo erectus. Esta espécie é apontada pelos investigadores como a provável autora dos episódios de fogo identificados no Estrato 11 da Gruta de Wonderwerk, datados de há cerca de 1,8 milhões de anos. A capacidade de transportar e manter brasas ativas em abrigos profundos revela um nível de planeamento e cooperação social que foi decisivo para a sobrevivência e para o aumento do cérebro destes nossos antepassados | Smithsonian National Museum of Natural History / Reconstrução de John Gurche / Fotografia de Tim Evanson via Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0).

A equipa analisou centenas de fragmentos de ossos de pequenos mamíferos encontrados em camadas do Pleistoceno Inferior (estratos 10 e 11). Utilizando uma técnica inovadora baseada na luminescência e validada por espectroscopia de infravermelho (FTIR), os cientistas conseguiram identificar assinaturas de calor em ossos localizados a 30 metros de profundidade no interior da gruta. Esta localização é crucial, pois exclui a possibilidade de incêndios naturais de savana terem atingido os materiais.

O que são Estratos 10 e 11?

Na arqueologia, um estrato é uma camada distinta de sedimento ou rocha que se acumulou ao longo do tempo. Na Gruta de Wonderwerk, a equipa identificou uma sequência de várias camadas que registam quase dois milhões de anos de ocupação humana.

  • Estrato 11 (St. 11): É a camada mais antiga analisada neste estudo específico. Está situada no período do Pleistoceno Inferior e as amostras recolhidas na sua base datam de há aproximadamente 1,8 milhões de anos. Foi nesta camada que os cientistas confirmaram a presença de microfauna queimada, recuando a cronologia do uso do fogo.
  • Estrato 10 (St. 10): É uma camada mais recente que se situa por cima do Estrato 11. Datada de há cerca de 1,0 milhão de anos, já era conhecida por conter evidências robustas de fogo, incluindo cinzas in situ e ferramentas de pedra danificadas pelo calor.

A relação entre eles

  • Separação Física: Embora pareçam próximos na numeração, estes dois estratos estão separados por cerca de 80 centímetros de profundidade.
  • Distância Temporal: Cronologicamente, a diferença entre o início da formação do Estrato 11 e o Estrato 10 é de dezenas de milhares de anos.
  • Contexto Cultural: Ambos estão associados à tecnologia lítica Acheulense (caracterizada pelos primeiros machados de mão), embora o Estrato 11 marque o início dessa transição a partir da cultura anterior (Oldovaiense).

A identificação de fogo repetido nestes dois níveis distintos (10 e 11) é o que permite aos investigadores concluir que o uso do fogo não foi um evento isolado, mas sim uma tradição ou comportamento repetido pelos hominíneos ao longo de vastos períodos de tempo.

Embora não existam provas de que soubessem fazer fogo, a capacidade de o manter e utilizar repetidamente dentro de um abrigo profundo revela níveis de planeamento e cooperação social muito superiores ao que se pensava para a época.

Citações dos Investigadores:

A equipa sublinha que esta descoberta é um marco para a arqueologia de “tempo profundo”:

“As nossas descobertas recuam definitivamente o aparecimento do fogo associado a hominíneos para uma idade entre 1,07 e 1,79 milhões de anos, confirmando a evidência de microfauna queimada no Estrato 11.”

Sobre a importância da nova ferramenta de deteção, os autores destacam:

“À medida que as investigações sobre a pirotecnologia primitiva avançam, torna-se cada vez mais evidente que necessitamos de métodos analíticos robustos e não invasivos, como o método de luminescência aqui apresentado, capazes de identificar com confiança fósseis queimados.”

Imagem de destaque: Mapa da distribuição de microfauna queimada no Estrato 11 da Gruta de Wonderwerk. O diagrama apresenta a percentagem de ossos de pequenos mamíferos queimados em diferentes quadrículas de escavação. As cores na legenda (níveis 1 a 5) indicam o grau de combustão baseado na alteração cromática dos fósseis, desde vestígios castanhos (carbonização) a cinzento-esbranquiçados (calcinação), todos validados pelas técnicas de luminescência e espectroscopia de infravermelho (FTIR). A concentração de ossos intensamente queimados em quadrículas específicas (como R22 e R27, separadas por cinco metros) reforça a evidência de episódios de fogo repetidos e localizados, introduzidos por hominíneos a 30 metros de profundidade. | Fonte: Reproduzido de Marin-Monfort, M. D., Shaw, C. L., Natalio, F., …, & Fernández-Jalvo, Y. (2026). “New evidence for Early Pleistocene use of fire at Wonderwerk Cave (South Africa)”. PLOS One, 21(6): e0347480. DOI: 10.1371/journal.pone.0347480

Autor: Prof. Nuno Nascimento

Professor de Informática e apaixonado pelo conhecimento científico.

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