Durante muito tempo, foi comum ouvir dizer que “antigamente as crianças não tinham traumas” e que uma simples reprimenda ou uma estalada bastavam para resolver qualquer problema.

Hoje, décadas de investigação científica mostram uma realidade bastante diferente. Milhões de adultos continuam a sofrer as consequências psicológicas e emocionais de experiências vividas durante a infância.

A violência doméstica não afeta apenas os adultos. Afeta também as crianças que crescem em ambientes familiares marcados pelo medo, pela tensão e pela violência.
A violência doméstica resulta frequentemente de múltiplos fatores individuais, familiares e sociais. Independentemente da sua origem, as crianças nunca devem ser as vítimas silenciosas destes ambientes familiares.

Foi publicado um estudo de revisão chamado Psychological, Emotional, and Neuropsychological Sequelae of Child Victims of Domestic Violence: A Review of the Literature, dos autores Natalia Bueso-Izquierdo, Mónica Guerrero-Molina, Carlos Barbosa-Torres, Mónica Ferrera-Silva e Juan Manuel Moreno-Manso. Este trabalho foi publicado na revista científica Journal of Child & Adolescent Trauma, onde foi feita uma revisão sistemática da literatura (seguindo as orientações PRISMA).

Partindo da questão, “Quais são as consequências psicológicas, emocionais e neuropsicológicas para crianças expostas à violência doméstica?”, os autores pesquisaram quatro grandes bases de dados científicas (PubMed, PsycNet, Google Scholar e Scopus), seguindo as recomendações internacionais PRISMA. Da pesquisa inicial de 10 127 artigos, apenas 32 estudos cumpriram todos os critérios de qualidade metodológica e foram incluídos na revisão. Os estudos analisados foram publicados entre 2000 e 2024.

Fluxograma PRISMA utilizado na seleção dos estudos incluídos na revisão sistemática. Dos 10 127 artigos inicialmente identificados nas bases de dados científicas, apenas 32 cumpriram todos os critérios de inclusão e qualidade metodológica definidos pelos autores. | Adaptado de Bueso-Izquierdo et al. (2026), Journal of Child & Adolescent Trauma. Springer Nature.

Quais foram as conclusões a que chegaram?

• A exposição à violência doméstica está consistentemente associada a consequências negativas no desenvolvimento infantil.
• A gravidade dessas consequências depende da intensidade, frequência e tipo de violência vivenciada.
• As crianças vítimas diretas apresentam, em média, consequências mais graves do que aquelas que apenas testemunham a violência entre os pais.
• Mesmo quando a criança não sofre agressões físicas, assistir repetidamente à violência doméstica está associado a alterações emocionais, psicológicas e cognitivas importantes.
• Os autores defendem que a identificação precoce destas crianças e a intervenção especializada podem reduzir significativamente o impacto a longo prazo.

Como é que a violência doméstica afeta o desenvolvimento da criança?

Como vimos anteriormente, a exposição contínua a estes estímulos negativos interfere com o desenvolvimento emocional, psicológico, neuropsicológico, adaptativo e escolar da criança. Mesmo quando não existe agressão física direta contra a criança, assistir repetidamente a episódios de violência provoca um estado persistente de stress que pode afetar o normal funcionamento do cérebro em desenvolvimento.

Quais foram as principais consequências encontradas?

Através deste estudo, foi encontrada uma associação clara entre a exposição à violência doméstica e um conjunto de consequências psicológicas e emocionais.
Entre as mais frequentes destacam-se:

• Ansiedade.
• Depressão.
• Sintomas de perturbação de stress pós-traumático (PTSD).
• Medo persistente.
• Baixa autoestima.
• Dificuldades na regulação emocional.
• Problemas de comportamento.
• Agressividade.
• Isolamento social.
• Dificuldades nas relações interpessoais.

Os autores salientam ainda que algumas crianças apresentam sintomas internalizantes, ou seja, dirigem o sofrimento para si próprias, manifestando ansiedade, tristeza, medo, baixa autoestima, isolamento social ou sintomas depressivos. Outras desenvolvem sintomas externalizantes, expressando o sofrimento através do comportamento, com agressividade, impulsividade, irritabilidade, desobediência ou dificuldades em controlar as emoções.

Os autores citam uma perspetiva interessante:

“de que deveríamos mudar o conceito de “exposição” para “experiência”. Esta perspectiva reforça que a criança não é uma espectadora passiva à distância, mas alguém que vive ativamente o trauma e desenvolve as suas próprias estratégias de resposta”.

A nível cognitivo, os cientistas descrevem também alterações em várias funções cognitivas importantes para o desenvolvimento infantil, como:

• Atenção.
• Concentração.
• Memória.
• Funções executivas.
• Capacidade de resolução de problemas.
• Aprendizagem.
• Rendimento escolar.

Entre os estudos analisados encontra-se uma investigação conduzida por Koenen e colaboradores, publicada em 2003, que acompanhou 1116 gémeos de cinco anos. Os autores observaram que as crianças expostas a níveis elevados de violência doméstica apresentavam, em média, um QI cerca de oito pontos inferior ao das crianças do grupo de controlo. Embora este resultado pertença a um estudo específico e não possa ser generalizado a todas as situações, mostra o impacto que ambientes familiares altamente violentos podem ter no desenvolvimento cognitivo infantil.

Os autores identificam várias limitações na literatura disponível.
Entre elas destacam-se:

• Grande diversidade entre os estudos incluídos.
• Diferentes definições de violência doméstica utilizadas pelos investigadores.
• Metodologias distintas para avaliar o desenvolvimento infantil.
• Dificuldade em separar os efeitos da violência doméstica de outras experiências adversas vividas pelas crianças.
• Necessidade de mais estudos que acompanhem estas crianças ao longo da vida.

Os investigadores sublinham ainda que muitos estudos analisam apenas determinados tipos de consequências, não permitindo uma visão completamente integrada do problema.

Proteger uma criança da violência não significa apenas evitar agressões físicas. Significa proteger um cérebro em desenvolvimento, preservar a saúde mental futura e oferecer-lhe a possibilidade de crescer num ambiente seguro, onde possa desenvolver todo o seu potencial.

Referência científica
Bueso-Izquierdo N, Guerrero-Molina M, Barbosa-Torres C, Ferrera-Silva M, Moreno-Manso JM. Psychological, Emotional, and Neuropsychological Sequelae of Child Victims of Domestic Violence: A Review of the Literature. Journal of Child & Adolescent Trauma (2026). DOI: 10.1007/s40653-025-00746-6

Autor: Prof. Nuno Nascimento

Professor de Informática e apaixonado pelo conhecimento científico.

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