Tratar de um familiar dependente tem grande impacto na saúde mental. Um novo estudo científico liderado por Teresa Martins, Daniela França, Maria José Peixoto, Elisangela Zanatta e Fátima Araújo procurou precisamente perceber até que ponto a sobrecarga sentida pelos cuidadores informais pode ajudar a prever situações de ansiedade e depressão. O trabalho foi publicado na revista científica BMC Public Health.
Nesta investigação foram analisados dados de 201 cuidadores familiares do norte de Portugal, reunidos entre 2018 e 2020. O objetivo era identificar um valor de referência que permitisse distinguir situações de sobrecarga mais preocupantes. Para isso os autores utilizaram uma versão reduzida do Questionário de Avaliação da Sobrecarga do Cuidador Informal (QASCI-VR), uma ferramenta desenvolvida para a população portuguesa.
O estudo revelou que cerca de 40,8% dos cuidadores apresentavam sinais de depressão, um valor considerado elevado pelos investigadores. Os autores concluem ainda que uma pontuação igual ou superior a 40 pontos no QASCI-VR está associada a maior risco de ansiedade e depressão. Segundo os investigadores, este valor oferece “um limiar validado” para apoiar decisões clínicas e acompanhamento psicológico, permitindo uma identificação mais precoce de cuidadores vulneráveis.

O estudo sublinha ainda que muitos cuidadores acabam por negligenciar a própria saúde física e emocional devido às exigências constantes associadas ao apoio familiar, e que enfrentam frequentemente “stress, ansiedade, depressão e exaustão”, sobretudo quando os cuidados se prolongam durante meses ou anos.
Em Portugal, mais de 1,4 milhões de pessoas assumem o papel de cuidador informal, muitas vezes sem apoio institucional suficiente. Segundo os autores, este estudo ajuda a preencher “uma lacuna crítica” na avaliação da saúde mental dos cuidadores. O trabalho poderá ter impacto direto na prática clínica, sobretudo em hospitais, centros de saúde e serviços de apoio domiciliário, permitindo identificar mais cedo situações de maior vulnerabilidade psicológica.
