Em Júpiter, uma tempestade não é apenas um fenómeno meteorológico é um espetáculo elétrico que pode ser drasticamente mais poderoso do que qualquer evento observado na Terra. Uma nova investigação baseada em dados da sonda Juno, da NASA, sugere que as descargas elétricas no gigante gasoso revelam uma complexidade atmosférica muito superior ao que os cientistas imaginavam.

O Estudo: Supertempestades furtivas

A investigação foi liderada por cientistas da Universidade da Califórnia em Berkeley, com base em medições feitas pelo Radiómetro de Micro-ondas (MWR) da missão Juno. O estudo focou-se no que os especialistas chamam de “supertempestades furtivas” (stealth superstorms). Estas tempestades recebem este nome porque, embora libertem energias gigantescas, não projetam aerossóis a altitudes tão extremas como as tempestades gigantes típicas, tornando-as menos brilhantes e mais difíceis de detetar por telescópios óticos tradicionais.

Mapeamento de uma supertempestade “furtiva” em Júpiter (PJ 44, agosto de 2022).
(a) Trajetória da sonda Juno (linha dourada) com as posições de detecção de relâmpagos pelo instrumento MWR marcadas com cor azul-esverdeada vibrante, sobrepostas a um mapa do Telescópio Espacial Hubble obtido 18 horas antes da passagem da sonda.
(b) Vista aproximada do sistema da tempestade em cores reais realçadas através de filtros específicos do Hubble.
(c) Mapa de altitude: As cores indicam o nível vertical e o brilho representa a opacidade das nuvens. As zonas a vermelho mostram nuvens de água profundas, o azul indica névoas e nuvens altas, e o branco assinala nuvens muito espessas que atingem grandes altitudes. Os mapas foram ajustados para coincidir com a localização exata da tempestade durante o voo da Juno | Fonte: Wong et al., AGU Advances, 2026. DOI: 10.1029/2025AV002083

Energia colossal e relâmpagos típicos

Ao contrário de missões espaciais anteriores que apenas conseguiam detetar os relâmpagos mais extremos (os chamados “superbolts”), o instrumento MWR da Juno permitiu, pela primeira vez, medir a distribuição de potência dos relâmpagos típicos de Júpiter. Os dados indicam que estas descargas podem ser comparáveis aos relâmpagos terrestres ou, em casos mais extremos, serem até um milhão de vezes mais poderosas, dependendo da duração da descarga.

Mecanismos e profundidade atmosférica

O processo de formação destes relâmpagos em Júpiter parece ocorrer de forma diferente da Terra. Enquanto no nosso planeta os relâmpagos formam-se em nuvens de água, as supertempestades furtivas de Júpiter parecem ter as suas raízes em nuvens de água profundas, onde ocorre a convecção húmida que transporta a energia interna do planeta. Estas tempestades funcionam como uma janela rara para compreender a física em mundos gigantes, onde as estruturas meteorológicas conseguem acumular quantidades gigantes de energia em zonas muito alargadas antes de ocorrer uma descarga.

Conhecer o sistema solar e além

À medida que a exploração espacial avança, perceber como se formam estes relâmpagos extremos torna-se vital não só para conhecer Júpiter, mas também para compreender o clima de exoplanetas distantes e a diversidade de atmosferas no Universo. A descoberta reforça a ideia de que mesmo fenómenos familiares, como um relâmpago, podem comportar-se de formas completamente inesperadas quando observados noutros mundos.

Autor: Prof. Nuno Nascimento

Professor de Informática e apaixonado pelo conhecimento científico.

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