Os sistemas binários constituídos por duas estrelas são relativamente comuns no Universo. No entanto, um sistema que combina uma anã branca com uma estrela companheira semelhante ao Sol está a surpreender os astrónomos. Em RXJ0528+2838, os investigadores identificaram uma onda de choque em arco cuja origem continua por explicar.
O estudo foi realizado por uma equipa internacional de investigadores, com participação de instituições como a Universidade de Durham, no Reino Unido, e o Centro Astronómico Nicolau Copérnico, na Polónia. Os coautores principais são Krystian Iłkiewicz e Simone Scaringi e o artigo científico foi publicado na revista Nature Astronomy, em 2026, com o título:“A persistent bow shock in a diskless magnetized accreting white dwarf”.
O que descobriram?
A onda de choque identificada neste sistema parece resultar de um fluxo de matéria libertado pelo sistema, mas não existe um mecanismo conhecido que explique completamente a sua formação e persistência. A dimensão e as características da onda de choque sugerem que esta estrutura poderá ter uma idade de, pelo menos, mil anos, o que torna o fenómeno muito intrigante.

Como realizaram o estudo?
A estrutura foi inicialmente identificada em imagens obtidas com o Isaac Newton Telescope, em Espanha. Para investigar a sua origem, a equipa recorreu ao instrumento MUSE, instalado no Very Large Telescope (VLT), do Observatório Europeu do Sul (ESO).
O que foi possível observar:
- Mapear a forma e a extensão da onda de choque.
- Analisar a composição química da estrutura, através da emissão de hidrogénio, azoto e oxigénio.
- Confirmar que a estrutura está associada ao sistema binário RXJ0528+2838, e não a uma nebulosa ou nuvem interestelar independente.
- Investigar a presença de um disco de matéria e o papel do campo magnético da anã branca.
Quais foram os principais resultados?
O estudo revelou quatro aspetos fundamentais:
1. Uma onda de choque sem explicação convencional. A anã branca está rodeada por uma estrutura em arco, produzida pela interação entre matéria libertada pelo sistema e o meio interestelar.
2. Em muitos sistemas binários, a matéria retirada à estrela companheira forma um disco em torno da anã branca. Esse disco pode alimentar fluxos de matéria para o espaço. Neste caso, os investigadores não encontraram evidências de um disco.
3. Uma estrutura com pelo menos mil anos. A dimensão e a forma da onda de choque sugerem que o fluxo de matéria responsável pela sua formação se mantém há, pelo menos, mil anos.
4. O campo magnético da anã branca poderá canalizar diretamente a matéria da estrela companheira para a sua superfície. No entanto, os cálculos apresentados pelos investigadores indicam que a energia magnética estimada não seria suficiente para explicar a persistência da onda de choque durante pelo menos mil anos.
O que significa esta descoberta e quais são as limitações?
A descoberta sugere que os sistemas binários com anãs brancas podem produzir fluxos de matéria mesmo na ausência de um disco de matéria à sua volta.
O campo magnético poderá desempenhar um papel importante, mas os investigadores admitem que poderá existir uma fonte adicional de energia ainda desconhecida, descrita no comunicado como um «motor misterioso».
É importante não apresentar esta hipótese como uma explicação confirmada.
O estudo também não demonstra que todos os sistemas deste tipo funcionam da mesma forma. Será necessário observar outros sistemas binários para perceber se este fenómeno é raro ou se existe um mecanismo mais generalizado que ainda não foi identificado.
Qual é a conclusão científica?
A observação de RXJ0528+2838 revela um fenómeno que desafia a explicação habitual dos fluxos de matéria em sistemas binários com anãs brancas.
A ausência de um disco de matéria à sua volta, juntamente com a persistência da onda de choque durante pelo menos mil anos, levanta questões sobre a forma como a matéria e a energia são transferidas nestes sistemas.
O campo magnético é uma pista importante, mas a origem completa do fenómeno permanece por esclarecer. Futuras observações, incluindo com o Extremely Large Telescope (ELT), poderão ajudar a esclarecer este mecanismo.
