Um grupo internacional de cientistas, liderado por Attila Andics, autor correspondente e responsável pelo laboratório, procurou responder a uma questão fundamental da neurolinguística: será que a capacidade de identificar palavras no meio da fala contínua depende de mecanismos exclusivos dos humanos?
O estudo, que teve como primeiras autoras, com igual contribuição, as investigadoras Boglárka Morvai e Kinga G. Tóth, foi publicado a 24 de setembro de 2026, na revista científica Science (volume 393, edição 6818).
O que já se sabia?
Antes desta investigação, sabia-se que os humanos utilizam padrões de consoantes para identificar palavras na fala contínua. Durante o desenvolvimento, os bebés começam por dar maior importância às vogais e, progressivamente, passam a depender mais das consoantes para identificar palavras.
Em estudos anteriores, esta preferência pelas consoantes não tinha sido observada da mesma forma noutros primatas não humanos.
Para investigar se este mecanismo também poderia surgir numa espécie que não fala, mas que está diariamente exposta à linguagem humana, os investigadores escolheram os cães domésticos.
Como foi realizado o estudo?
Os investigadores utilizaram a eletroencefalografia (EEG) não invasiva para registar a atividade elétrica cerebral de 20 humanos adultos e 20 cães domésticos.
Durante a experiência, os participantes ouviram sequências contínuas de palavras inventadas, sem pausas que indicassem onde começava ou terminava cada palavra.

As sequências apresentavam três tipos de organização:
- Estrutura baseada em consoantes: os padrões de consoantes permitiam identificar as palavras.
- Estrutura baseada em vogais: eram os padrões de vogais que permitiam identificar as palavras.
- Sequências aleatórias: não existia uma regularidade que permitisse identificar as palavras da mesma forma.
O objetivo era perceber se o cérebro conseguia identificar padrões na sequência de sons e acompanhar a organização das palavras, mesmo sem pausas entre elas.
O que descobriram os investigadores?
Os resultados mostraram que tanto os humanos como os cães apresentaram respostas cerebrais mais fortes às sequências organizadas por padrões de consoantes do que às sequências baseadas em vogais ou às sequências aleatórias.
Esta diferença foi observada através de medidas de sincronização da atividade cerebral, conhecidas como Intertrial Coherence (ITC), e de potenciais evocados (ERP), que permitem analisar as respostas do cérebro aos estímulos sonoros.
A preferência pelas consoantes foi também observada em cães com diferentes histórias de exposição à fala humana durante as primeiras semanas de vida. Este resultado sugere que uma exposição intensa à fala numa fase precoce não é indispensável para observar este efeito.
Humanos e cães processam a fala da mesma forma?
Apesar das semelhanças, os investigadores identificaram diferenças no nível de detalhe do processamento cerebral.
Nos humanos, a atividade cerebral acompanhou não só o ritmo das sílabas, mas também o dos sons individuais da fala. Nos cães, a resposta observada centrou-se no nível das sílabas.
Esta diferença sugere que, embora as duas espécies apresentem uma preferência semelhante por padrões de consoantes, o processamento da estrutura da fala pode ocorrer com diferentes níveis de detalhe.
O que significa esta descoberta?
O estudo mostra que uma preferência por padrões de consoantes, anteriormente associada ao processamento da fala nos humanos, também pode ser observada nos cães.
Os resultados sugerem que esta capacidade não depende necessariamente de representações linguísticas humanas complexas ou da capacidade de falar.
No entanto, a investigação não permite concluir que a exposição à fala humana seja a única responsável por esta preferência. Os investigadores admitem que poderão estar envolvidos mecanismos de aprendizagem estatística, capacidades auditivas mais gerais ou fatores relacionados com a história evolutiva dos cães.
A descoberta ajuda a compreender como diferentes espécies podem identificar padrões na fala humana, mesmo sem possuírem linguagem.
Imagem de destaque: Humano e cão, foto de Eric Ward na Unsplash
