Hoje, para muitas pessoas, o dia começa com uma chávena de café, seja para despertar de manhã, acompanhar uma conversa ou simplesmente pelo prazer do seu sabor. O café tornou-se uma das bebidas mais consumidas no mundo, mas a história desta planta começou muito longe dos cafés e das máquinas de espresso que hoje conhecemos. Embora existam várias histórias e lendas sobre a descoberta das propriedades estimulantes do café, os primeiros registos históricos mais concretos apontam para o seu cultivo no Iémen, pelo menos desde o século XV. Foi a partir daí que o café começou a ser cultivado de forma organizada e a ganhar importância como bebida e como mercadoria. Têm sido feitos vários estudos sobre os benefícios e desvantagens do consumo moderado de café, e recentemente um novo artigo científico elaborado por uma equipa de investigadores da Universidade de Oulu, na Finlândia, liderada por Luca Verroest, analisou os dados da Northern Finland Birth Cohort 1966, contando também com colaboradores de instituições da Polónia e do Reino Unido. Este estudo foi publicado na European Journal of Nutrition.
A investigação avaliou um grupo muito específico de 2.264 participantes que tinham todos exatamente 46 anos de idade no momento da colheita de dados, o que isola por completo o impacto do envelhecimento fisiológico na dosagem.

A escolha da Finlândia para esta investigação é ideal, uma vez que o estudo salienta que o país é o maior consumidor de café do mundo per capita, com uma média de consumo anual de aproximadamente 11,8 kg por pessoa. O estudo revela ainda que, na Finlândia, o café consumido é predominantemente filtrado (97,8%) e de torra clara. Isto é quimicamente relevante: o processo de filtragem retém diterpenos como o cafestol e o kahweol, compostos presentes no café não filtrado que são conhecidos por aumentar o colesterol LDL (o “mau” colesterol).
Os investigadores partiram da pergunta “Que relação existe entre o consumo habitual de café e os metabolitos circulantes, os marcadores cardiometabólicos e as hormonas sexuais?” Os cientistas quiseram perceber se o consumo habitual de café estava associado a alterações na composição corporal, no metabolismo, nos metabolitos presentes no sangue e nas hormonas sexuais, procurando também perceber se essas associações eram diferentes entre homens e mulheres.
Os resultados principais foram:
- Maior consumo de café associado a menos gordura corporal total.
- Menor quantidade de gordura visceral, aquela que se acumula em torno dos órgãos.
- Maior massa muscular esquelética.
- Diferenças que permaneciam mesmo quando pessoas com diferentes consumos de café apresentavam IMC semelhante.
- As pessoas que consumiam mais café apresentavam concentrações mais baixas de determinados aminoácidos de cadeia ramificada, conhecidos pela sigla BCAA.
- Níveis cronicamente elevados destes aminoácidos já foram associados, em investigação anterior, à resistência à insulina e a um maior risco de desenvolver diabetes tipo 2.
No entanto este trabalho encontrou uma associação, não demonstrou que o café reduz os BCAA ou que, por isso, previne a diabetes.
Os dados recolhidos mostram que no caso dos homens um maior consumo de café esteve associado a níveis mais elevados de testosterona total, a níveis mais elevados de testosterona biodisponível. Também a níveis mais elevados de SHBG, a globulina de ligação às hormonas sexuais, a níveis mais baixos de testosterona livre e um índice androgénico livre mais baixo. Nos homens: Cada chávena diária associou-se a um aumento de +0,29 nmol/L de testosterona total e +0,57 nmol/L de SHBG. Nas mulheres: Cada chávena diária associou-se a um aumento ainda mais expressivo de +1,27 nmol/L de SHBG.
O artigo original sublinha que níveis elevados de SHBG são variáveis independentes de um menor risco de desenvolver diabetes tipo 2 e síndrome metabólica em ambos os sexos. No caso das mulheres, o aumento de SHBG provocado pelo café é apontado como um dos principais mecanismos que explicam o efeito protetor da bebida contra a diabetes.
O que é um nmol/L?
nmol/L significa nanomoles por litro (nanomols por litro). Esta é uma unidade de medida científica padrão utilizada na medicina e na biologia para mostrar a concentração de substâncias muito pequenas em fluidos corporais, habitualmente no sangue (soro ou plasma).
Ou seja, não é simplesmente “mais café = mais testosterona”. A relação hormonal é muito mais complexa. Nas mulheres, as associações hormonais foram menos extensas, mas um maior consumo de café esteve sobretudo associado a maior SHBG e a menores medidas de androgénios livres.
Mas o que se destacou neste estudo foi a verificação de que os participantes que consumiam mais café tinham IMC semelhante aos que consumiam menos, mas apresentavam uma composição corporal diferente. Isto pode sugerir que o IMC, sozinho, pode esconder diferenças importantes entre massa gorda e massa muscular.
No entanto o peso não conta toda a história. Duas pessoas podem pesar o mesmo em relação à sua altura e, ainda assim, ter quantidades muito diferentes de gordura visceral e músculo.
O café é uma bebida complexa que contém centenas de compostos biologicamente ativos. Portanto, não podemos pegar nestes resultados e concluir automaticamente que: “A cafeína queima gordura e aumenta músculo.”
Foi ainda observado que a diferença na pressão arterial sistólica entre os grandes consumidores e os não consumidores foi clinicamente muito pequena (apenas aproximadamente 3.6 mmHg de diferença), sugerindo que o consumo habitual a longo prazo é seguro para a saúde cardiovascular da maioria dos adultos.
Mas será que foi o café que provocou estas diferenças?
O estudo é observacional. Os investigadores encontraram associações entre o consumo habitual de café e determinados indicadores metabólicos, composição corporal e hormonas, mas isso não permite estabelecer causalidade. Pode existir, por exemplo, alguma causa relacionada com o estilo de vida que ajude a explicar as diferenças. Dessa forma cientistas dizem que ainda são necessários estudos para determinar se o café causa efetivamente estas alterações e, caso cause, quais dos seus numerosos compostos poderão estar envolvidos. Referem ainda que são necessários estudos longitudinais e de intervenção para determinar se o café causa estas alterações. O estudo analisou consumo habitual de café, e não um ensaio em que os investigadores deram determinadas doses de cafeína aos participantes.
