A descoberta de um navio romano afundado que remonta ao século II a.C. revela segredos de como a manutenção dos navios era provavelmente mais recorrente e complexa do que algumas evidências arqueológicas deixavam perceber.
O estudo ajuda-nos a visualizar o contexto histórico. O naufrágio ocorreu entre 170 a.C. e 130/120 a.C. Esta era uma fase de transição em que a República Romana se expandia rapidamente para o Mediterrâneo Oriental, logo após derrotar Cartago. Um navio mercante desta dimensão (com cerca de 21,5 metros de comprimento e capacidade para 100 toneladas) era uma peça essencial na expansão comercial e militar.
O navio foi encontrado na atual Croácia, na baía de Paržine, no lado sudeste da pequena ilha de Ilovik, no arquipélago de Cres-Lošinj e encontra-se a apenas cerca de 30 metros da costa e a quatro metros de profundidade. Foi descoberto em 2016 e começou a ser estudado consistentemente a partir de 2018, através de uma colaboração entre o Instituto de Conservação Croata e investigadores franceses do programa Adriboats, ligado ao CNRS/Centre Camille Jullian.
O objetivo foi perceber melhor os materiais orgânicos utilizados para proteger o casco de madeira da água do mar, dos microrganismos e de organismos marinhos que danificavam a madeira.
Os cientistas analisaram dez amostras do casco de madeira e descobriram que a base de proteção contra a água e os organismos marinhos era o alcatrão de pinheiro (pitch). No entanto, a amostra PA 101 revelou uma mistura intencional de alcatrão com cera de abelha. Esta combinação era conhecida na Antiguidade Clássica como zopissa, descrita por Plínio, o velho, na sua História Natural. Cientificamente, a adição de cera tinha uma função brilhante ao reduzir a viscosidade do alcatrão quando quente (tornando-o mais fácil de espalhar) e aumentava a flexibilidade do revestimento quando frio, evitando que estalasse com as águas frias do mar.
Quem era Plínio, o velho?
Na sua famosa obra História Natural (especificamente nos volumes XVI, 21 e XVI, 23), Plínio, o Velho, dá-nos o primeiro registo histórico detalhado sobre a utilização de substâncias adesivas orgânicas para proteger e impermeabilizar embarcações na Antiguidade.
Como o alcatrão é extremamente adesivo, funcionava como uma “armadilha” para o pólen em suspensão no ar de cada porto onde o navio parava para fazer reparações. Através da análise estatística destes grãos de pólen (assinaturas ambientais), os investigadores identificaram que o navio passou por 4 a 5 fases de manutenção distintas em diferentes regiões do Mediterrâneo. A análise do lastro de pedras do navio já sugeria que ele tinha sido construído em Brundisium (atual Brindisi). A análise dos pólens de várias amostras do casco confirmou-o, sugerindo uma assinatura de plantas herbáceas e agrícolas típicas da região de Apúlia. Outras amostras revelaram pólen de carvalhos e vegetação de montanha (como as serras de Učka e Velebit), provando que o navio recebeu manutenção na costa da atual Croácia. Por último, duas amostras específicas da proa (PA 101 e PA 102) continham uma enorme abundância de pólen de zimbro (Juniperus). Este dado coincide com a expansão documentada desta planta na área do antigo porto romano de Narona durante os séculos II e I a.C., revelando que o navio fez ali uma reparação localizada na proa.
Não é possível reconstruir simplesmente uma rota exata com uma espécie de mapa ponto a ponto, mas os dados permitem sugerir diferentes ambientes e possíveis locais de reparação.
Um simples grão de pólen, preso numa camada de alcatrão há mais de dois milénios, pode revelar onde um navio antigo foi reparado.
Este estudo demonstra como a arqueologia moderna consegue combinar diferentes áreas científicas. A química identifica os compostos utilizados no revestimento, enquanto a análise do pólen permite reconstruir parte do ambiente e da possível localização onde esses materiais foram aplicados.
Os navios antigos não eram objetos estáticos, eram máquinas que precisavam de manutenção, reparação e conhecimento técnico durante toda a sua vida útil.
Imagem de destaque: Vista da escavação da zona da proa do naufrágio Ilovik-Paržine 1. Em primeiro plano, é possível ver a carga de troncos e ânforas, com os arqueólogos a trabalhar junto à estrutura do complexo da proa | Charrie-Duhaut, A., Couillebault, Q., Miholjek, I., & Boetto, G. (2026). Adhesive coatings in naval archaeology: molecular and palynological investigations on materials from the Roman Republican wreck Ilovik–Paržine 1 (Croatia). Frontiers in Materials, 13:1758862.
