A ecóloga Zuzana Buřivalová venceu o Pritzker Emerging Environmental Genius Award de 2026 pelo seu trabalho com bioacústica. Através da gravação e análise dos sons produzidos por aves, mamíferos, anfíbios e insetos, a investigadora procura avaliar a biodiversidade das florestas tropicais e perceber se as medidas de conservação estão realmente a funcionar.

Uma floresta pode parecer saudável e já ter perdido parte da sua vida

Vistas do espaço, duas florestas podem parecer semelhantes. No entanto, a aparência da vegetação nem sempre revela o que acontece no seu interior. Uma área pode continuar coberta de árvores e, ainda assim, ter perdido parte significativa dos animais que antes a habitavam.

É este um dos problemas que a cientista da conservação Zuzana Buřivalová procura resolver. Investigadora na Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, e responsável pelo Sound Forest Lab, dedica-se ao estudo da biodiversidade das florestas tropicais através da bioacústica, uma área científica que utiliza os sons dos seres vivos para estudar os ecossistemas.

O seu trabalho valeu-lhe, a 8 de outubro de 2026, o Pritzker Emerging Environmental Genius Award, atribuído pelo Instituto do Ambiente e Sustentabilidade da Universidade da Califórnia, em Los Angeles (UCLA). O prémio, no valor de 100 mil dólares, reconhece o contributo da investigadora para a conservação da biodiversidade.

O que nos dizem os sons de uma floresta?

O estudo desenvolvido pela equipa de Buřivalová consiste em instalar equipamentos de gravação autónomos nas florestas. Estes dispositivos registam o ambiente sonoro durante longos períodos, permitindo recolher informação sobre a atividade de diferentes organismos, incluindo aves, mamíferos, rãs e insetos.

Em vez de se concentrar apenas num grupo de animais, a investigadora procura analisar o conjunto da paisagem sonora. Esta perspectiva permite estudar a atividade biológica de um ecossistema de forma mais alargada, incluindo em locais remotos onde a recolha de dados através de métodos tradicionais é difícil.

A análise das gravações ajuda a construir modelos sobre a biodiversidade de cada local. Estes modelos, conhecidos como linhas de base (baselines), permitem comparar o estado de uma floresta ao longo do tempo ou avaliar as alterações associadas a diferentes medidas de conservação.

A investigação não se limita à gravação de sons. Os dados acústicos são complementados com outras fontes de informação, como imagens e técnicas de detecção remota. Além disso, os investigadores têm de considerar que nem todos os animais produzem sons detetáveis: por isso, a bioacústica deve ser entendida como uma ferramenta de monitorização, e não como um inventário completo de todas as espécies presentes.

Criar uma referência para avaliar a conservação

Um dos projetos liderados por Buřivalová é o Soundscape Baselines Project, que procura documentar as paisagens sonoras de algumas das florestas mais intactas do mundo.

A iniciativa estabeleceu locais de monitorização em seis países. Na experimental, 36 equipamentos de gravação registaram os sons das florestas durante um ano inteiro, permitindo reunir uma grande quantidade de dados para estudar os padrões de atividade dos organismos.

O objetivo é criar referências que ajudem a responder a uma pergunta fundamental: quando se implementa uma medida de conservação ou de recuperação florestal, a biodiversidade está efetivamente a recuperar?

Plantar árvores ou preservar a cobertura vegetal são medidas importantes, mas não garantem, por si só, que um ecossistema recuperou a diversidade de vida que o caracterizava. A comparação entre as paisagens sonoras de referência e as gravações posteriores pode ajudar a identificar alterações que não são evidentes numa imagem de satélite.

Em maio de 2026, a equipa publicou na revista científica Global Change Biology o estudo “Bioacoustic Baselines for Intact Forests“, que apresenta esta abordagem para estabelecer referências acústicas em florestas relativamente intactas. O trabalho destaca a importância de dispor de dados de referência para avaliar as alterações na biodiversidade e a eficácia das medidas de conservação.

Quando a investigação ajuda uma comunidade a proteger a floresta

O trabalho de Buřivalová tem também consequências para as comunidades locais. No Gabão, os dados científicos recolhidos sobre a biodiversidade de uma floresta secular da comunidade de Massaha ajudaram a documentar o seu valor ecológico.

Segundo a UCLA, esta informação contribuiu para que a comunidade conseguisse travar uma proposta de exploração madeireira e criar a primeira área de conservação comunitária do país.

O caso ilustra como a investigação científica pode fornecer evidências úteis para decisões ambientais. Ao facilitar a medição e o mapeamento da biodiversidade, a bioacústica pode ajudar cientistas, responsáveis públicos e comunidades a apoiar estratégias de proteção dos ecossistemas.

Ouvir para compreender e proteger

A atribuição do Pritzker Emerging Environmental Genius Award reconhece uma abordagem que combina tecnologia, investigação ecológica e colaboração com parceiros locais.

Em tempos em que a perda de biodiversidade continua a ser um desafio global, conhecer a extensão da cobertura florestal não chega. É igualmente necessário perceber que formas de vida persistem nesses espaços e se as medidas adotadas estão a produzir resultados.

Ao transformar os sons das florestas em dados científicos comparáveis, o trabalho de Zuzana Buřivalová procura contribuir para essa avaliação. Porque proteger uma floresta não significa apenas manter as árvores de pé: significa também preservar as comunidades de seres vivos que fazem daquele ecossistema um lugar cheio de vida.

Imagem de destaque: Foto de Sebastian Unrau na Unsplash

Autor: Prof. Nuno Nascimento

Professor de Informática e apaixonado pelo conhecimento científico.

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