Reconhecer que podemos estar errados é apenas o primeiro passo. Para Nathan Ballantyne, aprender a questionar as próprias convicções obriga a confrontar ideias diferentes, avaliar a qualidade das evidências e reconhecer os limites da nossa competência.
A 16 de outubro de 2026, a Harvard Gazette publicou o artigo How to know if you’re wrong, integrado na série Wondering, dedicada a questões que procuram estimular a reflexão a partir do conhecimento de especialistas.
O texto apresenta as ideias de Nathan Ballantyne, professor associado de Filosofia, Cognição e Cultura na Arizona State University e investigador convidado do Radcliffe Institute durante o ano académico de 2026–2027. A publicação foi preparada a partir de uma conversa com o autor, relatada pelo jornalista Sy Boles.
Ao contrário de um artigo científico original, esta publicação não apresenta uma experiência nova nem resultados de uma investigação experimental. O seu objetivo é explorar uma questão filosófica com implicações para a forma como pensamos, avaliamos argumentos e construímos as nossas convicções.
A reflexão parte de uma pergunta simples, mas difícil de responder: como podemos reconhecer os erros que não conseguimos identificar em nós próprios?
Nathan Ballantyne recorda o seu primeiro contacto, durante uma aula de Inglês no ensino secundário, com a ideia de hamartia, um conceito associado à falha trágica que conduz uma personagem à sua queda. O que despertou a sua curiosidade foi a possibilidade de existirem erros que uma pessoa não consegue reconhecer, mesmo quando esses erros influenciam as suas decisões.
O problema não está apenas em aceitar que o conhecimento humano é limitado. A maioria das pessoas admite, em termos gerais, que pode estar enganada. A dificuldade surge quando essa possibilidade é aplicada a uma convicção concreta, sobretudo quando acreditamos muito nela.
Uma pessoa pode reconhecer que existem opiniões erradas no mundo sem considerar seriamente que uma das suas próprias crenças possa pertencer a esse grupo. É precisamente esta diferença entre aceitar a possibilidade abstrata do erro e questionar uma convicção particular que constitui um dos pontos centrais da reflexão de Ballantyne.
Para ultrapassar esta dificuldade, o filósofo propõe que nos afastemos momentaneamente das nossas certezas e examinemos a forma como chegámos às conclusões que defendemos.
Temos competência para formar esta opinião?
A abordagem apresentada por Ballantyne, desenvolvida no seu livro Knowing Our Limits, começa com uma pergunta fundamental: somos competentes para formar uma crença fundamentada nas evidências de que dispomos?
A questão move a atenção da convicção para o processo que a originou. Em vez de perguntarmos apenas se acreditamos numa determinada ideia, devemos analisar a informação que consultámos, os argumentos que considerámos e os conhecimentos necessários para avaliar o assunto.
Imagine-se alguém que tem uma opinião muito firme sobre a pena de morte, mas que nunca leu argumentos fundamentados contra a sua posição. Ao descobrir que existem numerosos livros e estudos que apresentam perspetivas diferentes, essa pessoa pode perceber que construiu a sua opinião com base numa amostra limitada da informação disponível.
Esta descoberta não demonstra, por si só, que a sua conclusão está errada. Mostra, porém, que a confiança com que a defende poderá não ser proporcional à qualidade e à abrangência das evidências que examinou.
A distinção é importante: reconhecer que o nosso processo de avaliação foi insuficiente não significa que a conclusão seja necessariamente falsa; significa que temos razões para a reavaliar.
O valor de confrontar ideias diferentes
Para Ballantyne, uma das formas de reconhecer os limites das nossas convicções consiste em entrar em contacto com argumentos e evidências que desafiam aquilo em que acreditamos.
Ler obras que apresentam posições contrárias, ouvir pessoas com perspetivas diferentes e procurar compreender os fundamentos dos seus argumentos pode revelar informação que anteriormente desconhecíamos. Esse contacto permite identificar lacunas no nosso conhecimento e perceber se considerámos, de forma justa, as principais alternativas à nossa posição.
O objetivo não é mudar de opinião sempre que alguém apresenta um argumento diferente. Também não é assumir que todas as perspetivas têm o mesmo valor ou que todas as afirmações estão igualmente sustentadas por evidências.
O que está em causa é a disposição para examinar os argumentos antes de os rejeitar. Uma convicção torna-se mais bem fundamentada quando consegue ser confrontada com objeções relevantes, em vez de permanecer protegida de qualquer questionamento.
Esta atitude exige paciência, capacidade de escuta e disponibilidade para ler de forma atenta, procurando compreender a posição do outro antes de formular uma resposta.
Quando ultrapassamos os limites da nossa especialidade
Outro conceito destacado por Ballantyne é o de epistemic trespassing, que pode ser traduzido como uma incursão indevida para além dos limites do próprio conhecimento especializado.
O conceito descreve situações em que alguém emite juízos sobre áreas que não domina suficientemente, sem compreender os métodos, os dados ou os critérios utilizados pelos especialistas dessa área.
O problema não está em falar sobre assuntos fora da nossa formação. A curiosidade e o debate entre diferentes áreas do conhecimento são importantes. A dificuldade surge quando a familiaridade superficial com um tema é confundida com competência para avaliar as evidências que o sustentam.
Por exemplo, conhecer alguns conceitos de biologia não equivale a possuir preparação para avaliar criticamente um ensaio clínico. Da mesma forma, acompanhar notícias sobre inteligência artificial não significa, por si só, ter conhecimentos suficientes para julgar a validade de um resultado técnico complexo.
Reconhecer estes limites não implica aceitar cegamente a opinião de uma autoridade. Implica compreender que diferentes áreas utilizam métodos próprios e que uma avaliação rigorosa pode exigir conhecimentos que ainda não possuímos.
A resposta mais responsável, em determinadas circunstâncias, poderá ser procurar fontes especializadas, consultar a literatura relevante ou suspender temporariamente o julgamento.
O papel do ambiente em que discutimos as nossas ideias
A reflexão de Ballantyne não se limita às capacidades individuais. O filósofo chama também a atenção para os ambientes sociais em que as opiniões são discutidas e avaliadas.
Conversas entre pessoas que partilham as mesmas convicções podem reforçar aquilo em que já acreditamos, sobretudo quando não existe espaço para questionar os argumentos do grupo. Nas redes sociais, a rapidez das interações e a exposição repetida a perspetivas semelhantes podem dificultar uma análise mais demorada.
Em contrapartida, contextos como salas de aula e grupos de investigação podem favorecer o confronto construtivo de ideias, desde que exista abertura para colocar perguntas, apresentar objeções e reconsiderar interpretações.
Ballantyne destaca também o valor das relações de amizade entre pessoas com diferenças políticas, morais ou religiosas. Estas relações podem criar oportunidades para compreender como os outros raciocinam e por que motivo determinadas ideias lhes parecem convincentes.
É importante não confundir abertura intelectual com a obrigação de mudar de opinião. Conhecer os argumentos de outra pessoa não significa ter de concordar com ela. Significa estar disposto a compreender a sua posição e a avaliar os argumentos apresentados antes de decidir se existe motivo para rever as próprias conclusões.
Reconhecer os limites do conhecimento é uma forma de rigor
A reflexão publicada pela Harvard Gazette aponta para uma dificuldade fundamental do pensamento humano: não basta reconhecer que podemos estar errados, é necessário desenvolver formas de identificar as situações em que as nossas convicções podem não estar suficientemente fundamentadas.
Questionar a origem de uma opinião, procurar evidências que contrariem as nossas expectativas, reconhecer os limites da própria especialidade e ouvir argumentos diferentes são atitudes que podem contribuir para uma avaliação mais cuidadosa do conhecimento.
Estas ideias não constituem uma garantia de que conseguiremos identificar todos os nossos erros. Também não demonstram que uma pessoa que duvida mais de si própria esteja necessariamente mais próxima da verdade. A dúvida, por si só, não substitui a análise crítica das evidências.
O contributo da reflexão de Nathan Ballantyne está sobretudo na proposta de transformar a possibilidade do erro numa pergunta concreta sobre a forma como pensamos: que informação considerámos, que argumentos deixámos de fora e que conhecimentos nos faltam para avaliar esta questão?
No final, o artigo recupera uma frase atribuída a Hannah Arendt:
Um ser humano é muito mais valioso do que as suas opiniões
A ideia convida a distinguir as pessoas das posições que defendem, tornando possível discordar sem reduzir o interlocutor àquilo em que acredita.
Reconhecer os limites do nosso conhecimento não é sinal de fraqueza intelectual. É uma condição para examinar melhor as nossas ideias, corrigir erros quando as evidências o justificam e manter aberta a possibilidade de aprender.
Porque, antes de perguntarmos se uma opinião está certa ou errada, talvez seja necessário perguntar se fizemos o suficiente para saber a diferença.
