Visto da Terra parece uma estrela super brilhante, mas após observação cuidada percebemos que é Vénus. Mas porque brilha tanto? Existem três razões principais para isso, mas todas têm a mesma origem: as espessas nuvens de ácido sulfúrico que cobrem completamente o planeta e refletem cerca de 75% da luz solar, funcionando como um enorme espelho.

Conhecido como o planeta da planeta Terra, pensa-se que no passado (milhões de anos) tinha atmosfera e oceanos, tendo o mesmo tamanho, massa, densidade e composição rochosa do nosso planeta. A maior proximidade ao Sol e o efeito de estufa descontrolado fizeram evaporar os antigos oceanos, aumentando a quantidade de vapor de água na atmosfera. Para além disso a luz solar separou as moléculas da água em hidrogénio e oxigénio, perdendo-se a água para sempre. A perda de água poderá ter contribuído para impedir o desenvolvimento de um sistema de placas tectónicas semelhante ao da Terra. Sem esse mecanismo, os gases libertados pelos vulcões, como o dióxido de carbono, acumularam-se na atmosfera. A pressão ficou 90 vezes maior do que a da Terra e a temperatura chegou aos 460º. Através do programa Venera, a União Soviética lançou sondas que conseguiram registar a superfície do planeta, recolhendo fotografias incríveis do seu interior. No entanto, estas sondas só duraram entre 20 minutos a 2 horas devido ao calor e pressão extrema, acabando por deixar de funcionar devido às condições extremas de temperatura e pressão.

Agora, um grupo de investigadores utilizou simulações tridimensionais para estudar a formação dos enormes vales tectónicos observados na superfície de Vénus. O estudo, liderado pelo cientista Xi Yang, da ETH Zurich, e realizado em colaboração com várias instituições internacionais, foi publicado na revista Nature Geoscience e revelou resultados inesperados.

Após analisarem os dados, os investigadores concluíram que alguns destes vales tectónicos, são relativamente recentes e que podem estar a crescer actualmente. As elevações observadas nas margens dos vales são a prova principal. Se o processo geológico de extensão e estiramento da crosta parasse, estas elevações desapareceriam rapidamente (geologicamente falando) devido ao relaxamento isostático.

“Os nossos resultados demonstram que as amplas elevações nos flancos dos rifts indicam fortemente que o rifting venusiano está atualmente em curso ou esteve ativo nos últimos dez milhões de anos.”, Xi Yang e equipa.

Esta informação pode implicar que o interior do planeta Vénus continua ativo. As taxas de expansão estimadas (3 a 10 cm por ano) são comparáveis às das fendas continentais mais rápidas da Terra, o que sugere um interior muito mais “vigoroso” do que se pensava. Além disso, os modelos indicam que estas zonas de rifting ocupam cerca de 8% da superfície de Vénus e estendem-se por aproximadamente 40 000 quilómetros, mostrando que não se trata de um fenómeno localizado, mas de um processo geológico à escala planetária.

Mas porque esta descoberta é tão relevante?

Porque durante muitos anos, pensava-se que Vénus era um planeta “morto” do ponto de vista geológico ao não ter placas tectónicas como as da Terra. Os resultados sugerem que Vénus poderá estar a deformar continuamente a sua superfície através dos movimentos do manto, como se o planeta estivesse lentamente a rasgar-se por dentro. O modelo computacional revelou que, para que a crosta de Vénus se consiga “rasgar” e formar estes vales profundos, a litosfera térmica precisa de ser espessa, com cerca de 150 km. Mas porque isso acontece? Ao contrário da Terra, onde o calor interno é libertado através do movimento das placas tectónicas, em Vénus esse calor acumula-se na litosfera. Como não existem placas tectónicas para dissipar essa energia, a crosta sofre tensões, estica-se e acaba por formar enormes vales tectónicos.

Para chegarem a estas conclusões os cientistas não observaram directamente o interior do planeta, mas utilizaram várias fontes de dados como modelos computacionais 3D, a física dos materiais, a temperatura, a viscosidade do manto e a gravidade de Vénus. De seguida compararam os dados recolhidos com imagens de radar obtidas pela missão Magellan da NASA.

Simulação tridimensional da formação de um vale tectónico (rift) em Vénus. O modelo mostra a evolução da crosta venusiana ao longo do tempo, revelando como as tensões internas podem esticar a superfície e originar grandes sistemas de fraturas. As diferentes cores representam a topografia e a deformação da crosta durante várias fases da evolução do rift. | Xi Yang et al. / Nature Geoscience (2026).

Com este trabalho científico, os investigadores sugerem que o planeta Vénus poderá ser muito mais dinâmico do que se pensava. Perceber a evolução dos planetas rochosos no Universo, porque uns desenvolvem placas tectónicas e outros não, ajuda-nos a entender melhor a complexidade do mundo que nos rodeia.

As futuras missões VERITAS (NASA) e EnVision (ESA) deverão fornecer imagens e medições muito mais detalhadas da superfície e do interior de Vénus. Esses dados poderão confirmar se o planeta continua geologicamente ativo ou se estas estruturas representam apenas vestígios de um passado ainda mal compreendido.

Autor: Prof. Nuno Nascimento

Professor de Informática e apaixonado pelo conhecimento científico.

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