Um novo estudo científico está a forçar os investigadores a repensar a evolução tecnológica humana na Ásia Oriental. Durante décadas, acreditou-se que as ferramentas de pedra sofisticadas surgiram predominantemente em África e na Europa, enquanto a Ásia seria um local com um grande conservadorismo tecnológico. No entanto, a análise do local arqueológico de Lingjing, no norte da China, revela que grupos humanos já desenvolviam técnicas complexas muito antes do esperado.
Inovação na Idade do Gelo:
Arqueólogos descobriram evidências de que, há cerca de 146 mil anos, os habitantes da região fabricavam ferramentas através de um sistema de lascamento centrípeto (núcleos discoides) altamente estruturado. Esta descoberta é especialmente surpreendente porque estas populações viviam num período de Idade do Gelo brutal, pondo em causa a ideia de que a criatividade humana apenas floresce em tempos de abundância.
As ferramentas foram atribuídas ao Homo juluensis, um grupo humano antigo que possuía cérebros volumosos (cerca de 1800 cm³) e uma mistura de características físicas que lembram tanto humanos arcaicos da Ásia como Neandertais da Europa.
Técnica de Datação, um relógio em cristais:
Um dos aspetos cruciais do estudo foi a aplicação de uma técnica de datação inovadora. Os investigadores, liderados por Yuchao Zhao e Zhangyang Li, utilizaram o método de Tório-230 (230Th) em pequenos cristais de calcite encontrados no interior de costelas de animais fossilizados. Este “relógio natural” permitiu recuar a idade do local em 20 mil anos, provando que estas ferramentas foram feitas num período de stress ambiental extremo.
Estratégia e Planeamento:
As ferramentas de Lingjing não eram lascas casuais, exigiam um planeamento cognitivo refinado, precisão e um conhecimento profundo da mecânica de fratura das pedras. Muitos artefactos mostram que os seus criadores entendiam as pedras como objetos tridimensionais, preparando as superfícies para obter gumes específicos e padronizados. Além da pedra, o sítio revelou também o fabrico de ferramentas de osso, sublinhando a sofisticação comportamental destes grupos.
Conclusão:
Esta descoberta sugere que os desafios ambientais severos podem ter servido como um incentivo para o desenvolvimento de novas estratégias tecnológicas. Lingjing posiciona agora a Ásia Oriental como um centro dinâmico de inovação e evolução humana, mudando permanentemente a narrativa sobre as nossas origens tecnológicas.
Imagem de destaque: núcleo de pedra (stone core) com cerca de 146.000 anos, que era utilizado como “matéria-prima” para fabricar ferramentas de talho ou carnicaria (butcher’s tools) | Crédito: Yuchao Zhao
