Porque é que cada vez mais pessoas têm dificuldade em dormir? Esta é uma das grandes questões de saúde pública da actualidade e foi abordada anteriormente num artigo do Jornal de Ciência. Nesse artigo vimos a diferença entre sono profundo e sono REM. O sono REM, ou Rapid Eye Movement, é uma fase essencial do ciclo de descanso marcada por movimentos rápidos dos olhos, atividade cerebral intensa e sonhos.

Suponha agora que seria possível influenciar o REM sem tomar medicamentos e sem recorrer a cirurgia. Uma equipa de investigadores da University of Texas at Austin, liderada por Kai Wing Kevin Tang, publicou, juntamente com outros investigadores, um estudo na revista Nature Communications, no qual apresenta um dispositivo de ultrassons. Este aparelho demonstrou ser capaz de estimular o cérebro e registar, ao mesmo tempo, a resposta cerebral através de sinais eléctricos captados pelos elétrodos.

Este dispositivo chamado de NEUSLeeP, é um sistema bioelectrónico colocado sobre a pele e foi desenvolvido para estudar e modular, de forma não invasiva, regiões profundas do cérebro envolvidas na regulação do sono. É um “adesivo bioadesivo flexível” que pesa apenas cerca de 103 gramas. Esta flexibilidade e o sistema de adesão foram concebidos para permitir a utilização durante toda a noite, com pouca interferência no sono natural.

NEUSLeeP, o adesivo bioelectrónico desenvolvido para estimular regiões profundas do cérebro através de ultrassons e, simultaneamente, monitorizar a actividade cerebral durante o sono. A figura mostra o dispositivo, a sua estrutura, o mecanismo proposto de estimulação do núcleo subtalâmico (STN) e o esquema da experiência de sono. | Tang et al., 2026, Nature Communications. Figura 1, adaptada de acordo com a publicação original.

Importa explicar que este dispositivo ainda não foi aprovado como ferramenta para o tratamento de perturbações do sono ou outras doenças. Trata-se de uma investigação experimental, realizada num grupo de 28 pessoas. No estudo, os investigadores utilizaram ondas ultrassónicas de baixa intensidade para produzir neuromodulação, no núcleo subtalâmico (STN), uma região profunda do cérebro envolvida em circuitos associados à regulação do sono e a processos emocionais.

O objetivo era atingir estruturas profundas relacionadas com a regulação do sono sem necessidade de abrir o crânio ou implantar elétrodos. Dos 28 participantes, 16 eram saudáveis e 12 apresentavam sintomas de insónia identificados através de um questionário. Estes últimos não tinham, no entanto, um diagnóstico clínico de insónia. O artigo indica um aumento de 4,6% (15,9 minutos) na duração do REM e uma redução de 24% (43 minutos) na latência REM.

“Esta plataforma estabelece um quadro generalizável para investigar a neuromodulação específica de áreas cerebrais e fases do sono durante o descanso.”, concluíram os investigadores.

O aparelho não afetou apenas o cérebro, os investigadores observaram um aumento na variabilidade da frequência cardíaca (HRV) no grupo saudável, um indicador associado à regulação do sistema nervoso autónomo e à resposta do organismo ao stress.

Também foram observadas alterações em circuitos cerebrais relacionados com o processamento emocional. Os investigadores interpretam estes resultados como sinais que merecem ser estudados, mas não como prova de que o dispositivo trata ansiedade, depressão ou PTSD.

O estudo não demonstra que temos agora uma “cura para os problemas do sono”. Esta investigação abre portas para futuras investigações sobre insónia, PTSD, depressão e outros problemas associados ao sono, mas serão necessários mais ensaios para perceber se os efeitos são consistentes, seguros e clinicamente relevantes.

Autor: Prof. Nuno Nascimento

Professor de Informática e apaixonado pelo conhecimento científico.

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