Em vez de depender exclusivamente da proximidade de uma estrela, a habitabilidade poderá resultar da combinação entre aquecimento interno e condições atmosféricas adequadas. Se esta hipótese estiver correta, a Via Láctea poderá albergar inúmeros refúgios para a vida escondidos na escuridão do espaço interestelar.
No entanto, um novo estudo liderado por David Dahlbüdding revela que a habitabilidade pode surgir na escuridão profunda do espaço interestelar. A investigação sugere que luas que orbitam planetas errantes podem manter oceanos líquidos durante períodos comparáveis à idade da Terra.
O motor térmico: Deformação gravitacional
Através de modelos numéricos avançados (ligando os sistemas helios e ggchem), os investigadores demonstraram que a deformação gravitacional causada pelo planeta hospedeiro gera forças de maré constantes. Esta energia geofísica é suficiente para manter a água líquida abaixo da superfície, criando condições para a vida mesmo sem qualquer radiação estelar.
O isolamento perfeito: Atmosferas de hidrogénio (H2)
O estudo valida a hipótese de que atmosferas dominadas por hidrogénio são “armadilhas de calor” muito eficientes. Ao contrário do dióxido de carbono, o hidrogénio não condensa em climas frios. Através da absorção induzida por colisão (Collision-Induced Absorption), estas atmosferas retêm o calor interno, impedindo o congelamento dos oceanos por milhares de milhões de anos.
Berço para a vida: amoníaco e ciclos de maré
A química destas exoluas é surpreendentemente favorável à biologia. A presença de amoníaco (NH3) pode criar um ambiente alcalino que favorece a formação de moléculas de ARN. Além disso, o aquecimento por marés gera ciclos de humedecimento e secagem, que a ciência considera essenciais para a química pré-biótica e o desenvolvimento de processos biológicos complexos.
Conclusão
Os modelos indicam que estas condições podem persistir por até 4,3 mil milhões de anos. Este trabalho de Dahlbüdding aumenta e muito as hipóteses de locais onde a vida pode existir: a habitabilidade deixa de ser um privilégio exclusivo de sistemas solares para se tornar um fenómeno potencialmente comum em mundos solitários que viajam pela Via Láctea.
Imagem de destaque: Simulação atmosférica de uma exolua com atmosfera dominada por hidrogénio (H2). A imagem ilustra os resultados do acoplamento dos códigos helios e ggchem para uma lua com pressão de 10 bar e aquecimento interno (Tint) de 100 K. À esquerda, observa-se a evolução do perfil pressão-temperatura, destacando-se a fronteira radiativa-convectiva (RCB), ponto onde o transporte de calor muda de natureza. À direita, apresentam-se os perfis das razões de mistura de volume (VMR) das principais moléculas, evidenciando a abundância estável de metano (CH4) e a variação da água (H2O) e amoníaco (NH3) consoante a altitude e a temperatura. Fonte Original: Dahlbüdding, D., Grassi, T., Molaverdikhani, K., Roccetti, G., Ercolano, B., Braun, D., & Caselli, P. (2026). “Habitability of tidally heated H2-dominated exomoons around free-floating planets”. Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, 548(2).
