Desde criança que ouvi falar de uma pessoa que tinha inventado uns espelhos que ao receber os raios do sol transformava-se numa arma que conseguia queimar barcos no mar. Era o chamado raio da morte e tinha sido inventado por Arquimedes. Arquimedes foi um dos cientistas, matemáticos, físicos e inventores mais importantes e brilhantes da Antiguidade Clássica. Nasceu em 287 a.C., sendo filho de um astrónomo local chamado Fídias. Mais tarde na sua juventude, viajou para o Egito para Alexandria que era na altura o maior centro intelectual do mundo grego na época, tendo estudado matemática e contactado com importantes estudiosos da época. Após concluir os estudos, regressou à sua terra natal e passou o resto da sua vida em Siracusa como conselheiro e cientista do rei Hierão II. Em 212 a.C., já idoso, com 75 anos, participou ativamente na defesa de Siracusa contra o exército romano, vindo a ser assassinado por um soldado durante a invasão da cidade.
Arquimedes como cientista da cidade desenvolveu várias teorias, princípios e invenções que moldaram o mundo dos nossos dias, e a quem é tradicionalmente atribuída a famosa exclamação «Eureka!». Das suas invenções destacam-se o príncipio de Arquimedes e a Hidrostática, a matemática do infinito, onde utilizou métodos de aproximação precursores do cálculo para obter o valor do pi e no desenvolvimento de engenhos civis e militares para defender Siracusa. Uma dessas invenções segundo reza a lenda são os espelhos que conseguiam queimar os barcos de madeira dos romanos através dos raios do sol.
O relato mais antigo sobre o uso de fogo no Cerco de Siracusa veio do escritor do século II Luciano de Samósata que fala de um mecanismo de fogo, mas não descreve espelhos. A menção específica ao uso de espelhos só apareceu séculos mais tarde, por meio de Antêmio de Trales, no século VI.
Pensa-se que os defensores da cidade possam ter utilizado os seus escudos de bronze ou cobre polidos atuando conjuntamente como um refletor parabólico para concentrar a luz do sol. Este tema sempre foi questionado ao longo de milhares de anos por vários cientistas e pensadores como Descartes, que achavam que não seria possível.
Os testes práticos contemporâneos realizados para verificar a viabilidade da invenção mostram que, embora a física por trás do conceito funcione sob condições perfeitas, a sua aplicação militar real é extremamente improvável.
Aqui ficam as tentativas de validar esta invenção.
O cientista Ioannis Sakkas, em 1973, foram utilizados cerca de 70 espelhos para concentrar a luz sobre uma embarcação a cerca de 50 metros. Mas a experiência não reproduziu exatamente as condições de uma batalha naval e, como refere, o revestimento de betume facilitou a combustão
No MIT, em 2005, estudantes utilizaram 127 espelhos quadrados e conseguiram gerar chamas em uma maquete de madeira a 30 metros de distância, mas isso só ocorreu após o barco permanecer imóvel por cerca de dez minutos sob um céu completamente limpo.
Por último em 2006 e 2010 num programa de TV MythBusters testaram o raio solar duas vezes e, em ambas, consideraram o mito como “refutado”. Na primeira, concluiu-se que armas convencionais (como flechas em chamas ou catapultas) seriam muito mais fáceis e eficientes para incendiar um navio a curta distância. Na segunda (com a participação de Barack Obama e 500 crianças mirando espelhos em uma maquete a 120 metros de distância), o alvo não chegou nem perto da temperatura de ignição. No entanto, estes programas servem como ilustração, não como “prova definitiva” de que o dispositivo nunca poderia ter funcionado.
O raio da morte de Arquimedes continua, por isso, entre a história e a lenda. A física por detrás da concentração da luz solar é real, mas não existe evidência suficiente para afirmar que Arquimedes tenha utilizado espelhos para incendiar navios romanos.Independentemente de ter construído ou não o famoso “raio da morte”, Arquimedes deixou uma obra científica extraordinária, que séculos mais tarde viria a influenciar nomes como Galileu Galilei e Isaac Newton.
