Responsabilidade

O Universo rege-se por leis naturais e imutáveis. Pela lei de causa e efeito todo e qualquer pensamento, palavra ou atitude vai provocar um determinado efeito. Toda e qualquer situação teve na sua origem uma determinada causa. Sublinhe-se que também um pensamento gera um certo efeito; e, previamente a uma atitude, sempre houve pelo menos um pensamento gerador.

É bonita esta conceção, por ser altamente responsabilizante. De facto, segundo esta lei, somos sempre os responsáveis por aquilo que nos acontece. O nosso presente resulta do nosso passado. Se sabemos ser construtivos, positivos, esforçados, corretos, conquistamos o direito a viver numa felicidade relativa. Se, pelo contrário, nos descuidamos, formos preguiçosos, negativos, destrutivos, maldosos, sofremos as consequências do mau uso do nosso livre-arbítrio.

Claro que o ambiente familiar, social ou de trabalho que nos rodeia tem influência no desenrolar dos acontecimentos. Mas, responsavelmente, a nossa presença nesses ambientes deve-se a opções nossas. Sendo sempre possível influenciarmos e sermos influenciados, mas, neste caso, por o consentirmos.

Há quem limite esta conceção à presente vida física e há quem considere estes valores eternos.
Os primeiros buscam as causas dos seus sofrimentos atuais no seu mau comportamento desde crianças. Os segundos admitem poder sofrer por atitudes incorretas de supostas vidas anteriores.

Ambos afirmam que o mal que fazemos aos outros há de vir bater-nos à porta — como num efeito bumerangue — e que o bem que fazemos nos é proveitoso. Assim, no presente, estamos a construir o nosso futuro, que irá ser tanto melhor quanto mais nos esforçarmos para sintonizar com as referidas Leis Universais.

Perante esta conceção, o acaso não existe. Tudo tem uma razão de ser, embora por vezes nos seja muito difícil descortinar as causas remotas das situações que vivemos. É, contudo, necessário ter cuidado com a avaliação exagerada que frequentemente é feita sobre o destino — no sentido de fatalidade —, por pessoas que se sentem condenadas a determinadas situações, sem se preocuparem em alterar o rumo da sua vida, por entenderem que não vale a pena.

Mas não será assim. O indivíduo que comete um crime horrendo precisa de aprender que isso é errado, de se arrepender e de se corrigir, criando condições para não mais o repetir. No momento em que ele efetivamente corrigiu essa faceta do seu próprio eu, libertou-se da situação negativa em que estava mergulhado, não precisando mais de sofrer em si os horrores do crime que provocou.

Apenas no caso de não se consciencializar do mal que fez e de não se corrigir necessitará então que o sofrimento daquele tipo, ou semelhante, recaia sobre ele, as vezes que forem precisas, até despertar para a realidade do seu comportamento incorreto e se aperceber de que a única forma de se libertar é não voltar a manchar o seu currículo espiritual com atitudes semelhantes.

Antes procurando enriquecer esse currículo com ações de sinal oposto, de dádiva, altruístas, de dedicação aos outros, de amor ao próximo.
Quando assim fizer, não mais precisará de ser punido, nem nunca de ser perdoado. Nem isso faria sentido. Parece muito mais lógico que cada um conquiste pelo seu esforço próprio o direito a libertar-se dos seus erros e a alcançar um estado de felicidade relativa.

Aqueles que meditam profundamente na lei de causa e efeito parecem criar condições para procurarem o caminho do equilíbrio e da harmonia com as Leis Universais. Para deixarem de culpar os outros por aquilo que de menos bom lhes sucede. Para deixarem de ter medo que o azar os persiga. Para deixarem de lamentar o sofrimento por que passaram. Para deixarem de recear não Ser Espiritual
serem capazes de vencer as dificuldades da vida. Para deixarem de pedir ou implorar a terceiros a resolução dos seus próprios problemas.

Aqueles que meditam profundamente na lei de causa e efeito tornam-se mais responsáveis, mais confiantes em si próprios, mais convictos das suas próprias capacidades, mais decididos a manterem pensamentos positivos e a desenvolverem o esforço necessário à conquista do direito à resolução dos seus erros, das suas dificuldades, dos seus problemas.

O ser humano que se esforça por se esclarecer deverá chegar a aperceber-se de que tem suficiente poder para mudar os rumos da vida; a perceber que o seu futuro será o que estiver a ser projetado e construído atualmente. Então passa a viver o presente com os olhos no futuro, pois «quem bem faz para si o faz e quem mal faz para si o faz».
Determinada atitude que um indivíduo assume vai desencadear os respetivos efeitos. Mas repare-se que essa atitude já é resultante de um determinado pensamento que a originou. Logo, ao controlar os seus pensamentos, o indivíduo controla as suas atitudes e, por conseguinte, modela o seu futuro, naturalmente de acordo com o estado evolutivo em que se encontra.

No futuro individual, parece realista e vantajosa a ideia de que cada um — embora sujeito às circunstâncias ambientais — é o principal responsável pelo que lhe acontece, admitindo-se que se o Homem realmente quiser preparar adequadamente o seu futuro, tem condições para o fazer. Sem esquecer que a evolução é progressiva, não se fazendo aos saltos. Conforme um aluno do 3.º ano não pode almejar, de repente, atingir o 10.º, também espiritualmente é necessário desenvolver o
esforço necessário para ir progredindo de forma consistente e tão rápida quanto possível.

Quanto ao futuro coletivo, ao longo dos tempos vários seres deram indicações de que a Humanidade viverá dias difíceis. A própria ciência admite que o estado atual da Terra não é definitivo, podendo vir a sofrer grandes transformações, algo bruscas, como já aconteceu no passado. Vários autores se inclinam para uma próxima catástrofe pelo calor. Uns admitem a grande aproximação de um planeta de outro sistema solar, outros preocupam-se com as alterações da quantidade de ozono na estratosfera.

Todos nós sabemos que a Humanidade vem assumindo, de forma crescente, um estilo de vida antinatural. Destruímos por minuto vinte hectares de floresta, o que significa onze milhões de hectares por ano. Temos hoje em qualquer cozinha mais produtos químicos do que tínhamos num laboratório há cem anos. Fabricam-se por minuto duzentas toneladas de produtos altamente tóxicos.
Atiramos ao mar anualmente sete milhões de toneladas de lixo.

Ao afastarmos a Terra do seu ponto de equilíbrio, devemos admitir e aceitar como lógica a reação natural (da própria Natureza), provavelmente tão drástica quão desequilibradas forem as atitudes dos homens.
Contudo, alguns filósofos — entre eles Agostinho da Silva — pensam que o Homem do século XXI se voltará muito mais para a sua vida espiritual, preterindo a desenfreada corrida material em que viveu no século XX.

Respeitando as Leis Universais, procurando as soluções inteligentes, vivendo de uma forma racional, construindo organizações sustentáveis, investindo na investigação científica, estaremos, logicamente, a construir um futuro melhor para a Humanidade, no caminho do reequilíbrio de atitudes e do esclarecimento espiritual. Neste enquadramento, não parecerão necessárias grandes convulsões para que a mudança se concretize e a evolução prossiga.

Reprodução autorizada por Dr.Luís Portela de capítulo de Ser espiritual: Da evidência à ciência (Gradiva, 2013)

Foto de Marcelo Cruz na Unsplash

Autor: Dr.Luís Portela

Presidente da Fundação Bial

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