Uma vaca pode desenvolver músculos fortes alimentando-se sobretudo de plantas. O segredo está nas proteínas vegetais, na digestão e, no caso dos ruminantes, nos milhares de milhões de microrganismos que vivem no seu sistema digestivo.
Se os músculos são constituídos por proteínas, como conseguem animais como as vacas, as ovelhas e os cavalos desenvolver tanta massa muscular sem comer carne?
A resposta começa com uma ideia fundamental: as proteínas não existem apenas nos alimentos de origem animal. As plantas também contêm proteínas, que fornecem aminoácidos, as unidades que o organismo utiliza para construir e reparar os seus próprios tecidos.
Mas há outro elemento particularmente interessante nesta história: os microrganismos que vivem no aparelho digestivo de muitos herbívoros.
As plantas também fornecem os materiais necessários para construir músculos
As proteínas são moléculas constituídas por cadeias de aminoácidos. Durante a digestão, as proteínas dos alimentos são degradadas e os aminoácidos são absorvidos e utilizados pelo organismo.
Estes aminoácidos podem ser incorporados em novas proteínas, incluindo as que constituem os músculos. Para que isso aconteça, o animal precisa de obter os aminoácidos necessários através da alimentação e de dispor de energia e de outras condições fisiológicas adequadas.
A quantidade e a qualidade das proteínas variam entre plantas. Por isso, não basta um herbívoro comer qualquer quantidade de vegetais: a composição da dieta influencia a disponibilidade de nutrientes necessários ao crescimento e à manutenção do organismo.
O rúmen: uma comunidade de microrganismos que ajuda a alimentar o animal
No caso das vacas, das ovelhas e de outros ruminantes, existe uma particularidade anatómica que torna a digestão especialmente interessante.
Estes animais possuem um estômago dividido em compartimentos, incluindo o rúmen, onde vive uma comunidade complexa de bactérias, protozoários, fungos e outros microrganismos.
Muitos destes microrganismos conseguem aproveitar componentes vegetais que o animal não conseguiria digerir sozinho, como partes da fibra. Ao fermentarem estes materiais, produzem compostos que o animal pode utilizar como fonte de energia.
Mas fazem ainda mais: os próprios microrganismos produzem proteínas.
Utilizando nutrientes disponíveis no rúmen, incluindo compostos azotados e energia provenientes da alimentação, os microrganismos crescem e sintetizam as suas próprias proteínas. Quando passam para os compartimentos digestivos seguintes, podem ser digeridos pelo animal, libertando aminoácidos que serão absorvidos e utilizados pelo organismo.
Uma revisão científica publicada em 2023 concluiu que a proteína microbiana fornece pelo menos metade dos aminoácidos utilizados na síntese das proteínas do leite e da carne dos ruminantes, embora a contribuição exata dependa das condições alimentares e fisiológicas.
Na prática, os microrganismos funcionam como uma fonte adicional de proteína para o animal.
E os cavalos? Nem todos os herbívoros digerem da mesma forma
Os cavalos também se alimentam sobretudo de plantas, mas o seu sistema digestivo funciona de maneira diferente.
Ao contrário das vacas, os cavalos não são ruminantes. A fermentação da fibra ocorre principalmente no ceco e no cólon, regiões do intestino grosso onde os microrganismos ajudam a decompor componentes vegetais.
Esta diferença é importante. Embora ambos consigam aproveitar nutrientes provenientes de uma alimentação vegetal, o local da fermentação e a forma como os produtos dessa atividade microbiana são aproveitados não são iguais nos dois animais.
Por isso, não devemos generalizar o mecanismo das vacas a todos os herbívoros. Cada espécie apresenta adaptações digestivas próprias.
Afinal, de onde vem o músculo?
O crescimento muscular não depende de comer carne, mas de fornecer ao organismo os materiais necessários para construir proteínas.
Nos herbívoros, esses materiais podem vir diretamente das proteínas vegetais digeridas ou, no caso dos ruminantes, também das proteínas produzidas pelos microrganismos do rúmen. O organismo utiliza depois os aminoácidos disponíveis para fabricar as suas próprias proteínas.
Naturalmente, a formação de músculo exige mais do que aminoácidos: requer energia, regulação hormonal, estímulos mecânicos e condições de saúde adequadas. A genética, a idade e a espécie também influenciam o desenvolvimento muscular.
Porque é que isto importa?
A aparente contradição desaparece quando compreendemos que a proteína não é exclusiva da carne e que os organismos podem obter os aminoácidos de que precisam através de diferentes estratégias nutricionais.
Uma vaca não precisa de comer carne para produzir músculo: aproveita os nutrientes das plantas e transforma-os, com a ajuda dos microrganismos do rúmen, nos materiais de que o seu organismo necessita.
Este exemplo mostra também como a relação entre um animal e os microrganismos que vivem no seu sistema digestivo pode ser fundamental para a sua sobrevivência. Em certos herbívoros, a digestão é, na realidade, o resultado do trabalho conjunto de muitos organismos.
