O tratamento da obesidade e da diabetes tipo 2 foi revolucionado pela compreensão das hormonas GLP-1, que regulam a saciedade e o metabolismo. O semaglutido, princípio ativo de fármacos como o Ozempic, imita esta ação, promovendo grandes perdas de peso, enquanto novas terapias como o tirzepatido (Mounjaro) elevam esse impacto para patamares superiores a 20%. No entanto, a investigação científica está agora a ultrapassar o controlo metabólico, posicionando estes medicamentos como potenciais ferramentas geroterapêuticas capazes de influenciar o tempo biológico humano.

O que são as ferramentas geroterapêuticas?

É a “medicina do tempo biológico”, que procura reprogramar a forma como o nosso corpo envelhece a nível molecular.

Um estudo clínico de fase 2b da Universidade da Califórnia em San Diego, publicado na Nature Communications, forneceu a primeira evidência de que a administração semanal de 2,4 mg de semaglutido pode atrasar o envelhecimento epigenético.

No que consiste um estudo clínico de fase 2b?

Refere-se ao teste decisivo que indica aos cientistas se os benefícios observados são fortes o suficiente para justificar o investimento massivo e o recrutamento de milhares de doentes para a fase seguinte da investigação.

Os cientistas fizeram um “reexame” de um estudo antigo utilizando um “termómetro de envelhecimento” ultra-tecnológico (o GrimAge v2). Este exame revelou que o medicamento não só ajudou a perder gordura, como também “atrasou os ponteiros” do relógio biológico no ADN dos pacientes durante 32 semanas.

O investigador Michael J. Corley afirmou que o trabalho oferece “a primeira evidência clínica de que um agonista do recetor GLP-1 pode influenciar diretamente marcadores biológicos do envelhecimento”.

Este efeito de rejuvenescimento molecular é impulsionado pela melhoria da saúde metabólica sistémica, incluindo a redução da gordura visceral e o combate ao inflammaging (inflamação crónica ligada à idade).

O que é a metabólica sistémica?

Pode dizer que a saúde metabólica sistémica é como a “manutenção geral de uma máquina”. Em vez de apenas reparar uma peça (como baixar o açúcar), esta metodologia limpa o combustível (glicose), reduz o sobreaquecimento (inflamação) e remove os detritos (gordura visceral), permitindo que todos os componentes da máquina, o coração, o cérebro e os rins, funcionem de forma mais eficiente e por mais tempo.

Os dados revelaram que a proteção conferida pelo medicamento não é isolada, mas estende-se a múltiplos sistemas, com reduções paralelas em marcadores de envelhecimento do cérebro, do coração, do fígado e dos rins. Estes achados apoiam a chamada “hipótese da gerociência”, que sugere que intervir nos processos básicos do envelhecimento pode prevenir simultaneamente várias doenças crónicas.

Apesar dos resultados promissores, a comunidade científica mantém uma postura de rigorosa prudência, lembrando que o ensaio focou-se num grupo específico de adultos com VIH e lipohipertrofia.

A investigadora Grace A. McComsey esclareceu que os dados “não significam que o semaglutido seja um medicamento antienvelhecimento, mas sugerem que a melhoria da saúde metabólica pode ter efeitos positivos em vários processos biológicos relacionados com a idade”.

Assim, o medicamento deve ser visto como um regulador da saúde biológica e não como uma solução estética ou uma “fonte da juventude” sem supervisão.

Para o futuro, esta investigação abre caminho para o reposicionamento dos agonistas do GLP-1 como tratamentos preventivos para condições degenerativas que surgem com o avançar dos anos.

O que é o reposicionamento dos agonistas do GLP-1 ?

O reposicionamento de agonistas do GLP-1 (como o semaglutido, presente no Ozempic e Wegovy) refere-se à estratégia de utilizar estes medicamentos para tratar condições de saúde diferentes daquelas para as quais foram originalmente desenvolvidos e aprovados.

A validação destes efeitos em populações mais vastas poderá transformar a medicina preventiva, permitindo que estas moléculas sejam utilizadas para expandir o tempo de vida com saúde. A bioquímica intestinal poderá ser a chave para reprogramar a velocidade a que o organismo humano envelhece.

Autor: Prof. Nuno Nascimento

Professor de Informática e apaixonado pelo conhecimento científico.

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